Há uma ilha no Centro de Londrina. Um espaço cercado de movimento onde jovens e adolescentes habitam sob a vista de milhares de pessoas e, ainda assim, isolados do resto da cidade. No terreno vazio entre a Creche Municipal e o Pronto Atendimento Infantil (PAI), junto à Avenida Leste-Oeste, meninos e meninas dormem, comem, bebem, brigam, jogam bola e consomem vários tipos de drogas sob a sombra de uma seringueira, tão alheios ao mundo e o mundo a eles que parecem estar entre quatro paredes ou num imenso mocó a céu aberto.
''A gente passa o dia aqui pensando no que vai acontecer à noite. Aí acaba o dia, vem outro, e a gente continua pensando no que vai fazer'', diz Lucas (nome fictício), 20 anos, um dos habitantes da ''ilha'', deitado na grama com os olhos num céu muito azul. A reportagem conversou com ele e outros três jovens ao meio-dia do último feriado de Tiradentes. Havia pelo menos uma dúzia de pessoas no local, mas os demais estavam dormindo ou visivelmente alterados pelo uso de substâncias entorpecentes.
A declaração de Lucas revela a falta de perspectiva de quem faz da rua sua morada. Gente a quem o conceito do ''sou brasileiro e não desisto nunca'' não chega. A apatia também vale para quem vê que esses jovens e já nem consegue se incomodar com a presença deles. Foi preciso que alguns invadissem também os jardins do PAI para que o problema voltasse a ser notado. Nos últimos três meses, adolescentes e maiores podem ser vistos por todos os cantos da área externa da unidade.
''Eles estavam utilizando as torneiras externas para lavar roupas e até para tomar banho, nus, à luz do dia. Até que fechamos os registros. Sei que não estamos resolvendo o problema desses jovens, mas a presença deles aqui constrange médicos e pacientes'', desabafa a diretora do PAI, Vera Lúcia Roncaratti.
Segundo os ''moradores'' do terreno da Avenida Leste-Oeste entrevistados pela reportagem, é comum que alguns integrantes do grupo busquem abrigo nos vãos do PAI. O ponto de referência, contudo, é mesmo a velha seringueira. Ali, o grupo varia de oito a 20 pessoas. Quase todos dizem já ter passado por algum abrigo ou programa assistencial. Alguns faziam parte do grupo que permanecia no Zerão. ''Depois que teve aquelas duas execuções lá (no ano passado), ninguém mais quis ficar. Muita gente que dormia aqui (no terreno do Centro) já foi morta também. Que nem o 'Raposa', amigo nosso que mataram no Bosque'', conta Robson, 18 anos.
O rapaz referia-se a Adriano Costa, 16 anos, assassinado com seis tiros no último dia 7. De acordo com seus amigos, Adriano foi morto porque ''fumou mais do que podia pagar''. ''Aqui a gente usa de tudo: maconha, crack, até cocaína. Mas não pode ficar devendo, porque os caras matam até por R$5,00'', afirmam. Marina, 15 anos, diz que uma amiga também adolescente estava grávida de Adriano. A gestante estava na rua até a semana passada, mas, segundo os colegas, resolveu voltar para casa.

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