Jovens usam férias para praticar ações sociais
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de fevereiro de 1998
Luciane Tonon 
Arquivo pessoalSeminaristas integraram o Projeto Timóteo de Missões, que nas últimas férias visitaram duas comunidadesUm grupo de jovens do Seminário Teológico Sul Americano de Londrina dedicou suas férias para assistir e evangelizar pessoas que vivem em ilhas no litoral paranaense, praticamente isoladas da civilização. O grupo integra o Projeto Timóteo de Missões.
Saindo de Paranaguá e navegando cerca de cinco horas pelo Oceano Atlântico, os aventureiros missionários chegaram àIlha de Puruquara. Ali, vivem cerca de 45 pessoas, que dependem exclusivamente da pesca e de confecções de rede. Moram em situação extremamente precária, muito aquém do progresso, explicou a coordenadora do projeto Timóteo, Meire Guimarães Rosa.
Para ela, um dos momentos mais difíceis da missão foi justamente o choque cultural. Foi difícil aceitar que aqui no Paraná, existam pessoas que mal falam a língua portuguesa e ainda não conheçam a luz elétrica, comentou Meire. A Ilha foi de colonização espanhola e a língua falada chega ser uma mistura de português com espanhol.
Puruquara pertence a Guaraqueçaba, onde os pescadores se apóiam para o suprimento de suas maiores necessidades. A pesca, base econômica da localidade, também é praticada pelas mulheres, o que contribui para que as crianças tornem-se independentes muito cedo, por ficarem em casa sozinhas.
A ilha não oferece condições de educação escolar. As crianças estudam somente até a 4ª série primária. Já o socorro médico é obtido em territórios vizinhos. Não há casamentos entre os habitantes da ilha, eles vivem maritalmente sem compromisso com o Estado ou com a religião. Não há compromisso de fidelidade conjugal, disse Meire.
Na ilha, a pessoa se torna útil à comunidade a partir do que produz. Os meninos iniciam cedo a pesca ao caranguejo nos mangues locais. A ilha não possui autonomia e quase não recebe benefícios. A liderança é exercida por aquele que mais se destaca na comunidade. Normalmente é pelo mais velho, o que ele fala é lei, informou a missionária.
Para se infiltrar na comunidade, a equipe missionária teve que mostrar serviço. Ajudar na pesca, roçar mato, limpar casas e quintais. A ociosidade não é bem vista entre eles. E só fomos bem aceitos quando viram que não estávamos ali por diversão, explicou a líder da missão. Ela contou que um dos integrantes da equipe só teve acesso aos pescadores depois que conseguiu pegar com as próprias mãos um filhote de jacaré, que estava no mangue.
Os missionários foram também à Ilha de Peças, localizada a 30 minutos de Paranaguá, onde vivem cerca de 100 famílias, todas dependendo da pesca e da fabricação de redes. Como a ilha tem praia, é possível obter renda com algum tipo de comércio. A revolta dos habitantes do local é o baixo preço dos produtos entregues aos chamados atravessadores. Quando eles (os pescadores) chegam em Paranaguá, percebem que os mesmos produtos são vendidos pelo dobro do preço. Isso causa revolta nos pescadores, relatou o seminarista Paulo Eduardo Vargas Pinheiro, outro integrante da missão.
Segundo ele, na Ilha de Peças as mulheres não saem para pescar, elas se limitam ao serviço doméstico. O local dispõe de infra-estrutura básica, como energia elétrica num período do dia e água encanada. Porém, os poços se localizam perto de banheiros, que são na sua maioria fora das casas. Isso causa um grande número de contaminação, explicou Pinheiro.
O Projeto Timóteo nasceu no coração de alguns alunos do Seminário Teológico Sul Americano em Londrina, que foram desafiados a se envolver de maneira mais efetiva nas questões sociais. O nome foi adotado por causa das caracterísitcas de Timóteo (personagem bíblico). Ele era um jovem discípulo do apóstolo Paulo, que desafiado a transmitir a outros o que havia aprendido, foi fiel. Iniciado em 1995 com uma viagem para o Uruguai, a equipe do Timóteo é formada por seminaristas com o objetivo de proporcionar experiência transcultural de curto prazo durante as férias e levar a palavra de Deus aos povos não alcançados.


