Hora do happy hour. Depois de uma rotina cansativa de estudo e estágio, os estudantes de Direito Vitor, Ricardo, Marcos, Mirela, Natália, Rodrigo e João, da UEL, saem para tomar alguma coisa e relaxar: vão direto para a cafeteria. Fugindo à linha dos jovens que bebem o pretinho ao amanhecer, eles têm o hábito de tomar café, uma espécie de programa para encontrar os amigos. Não é difícil encontrar no grupo, que é grande e varia conforme os dias, pessoas que se juntaram à turma por causa da bebida.
''De dois anos para cá, o café passou a ser nosso vínculo social'', conta João Gabriel Villela da Silva. ''Substituiu a cervejinha'', completa Vitor Geromel. ''Ou a cervejinha é decidida aqui'', acrescenta Mirela Bruno Jacinto, falando sobre os fins de semana. Segundo contam, aos sábados, antes do barzinho, a cafeteria é parada quase obrigatória.
Graças à disseminação de casas de café no país (o setor vem crescendo cerca de 20% ao ano) e à transformação da bebida - de popular à sofisticada -, o público jovem se sentiu mais atraído. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), nove em cada dez brasileiros acima de 15 anos consomem café diariamente. Em cinco anos, o consumo desse público cresceu 6%.
O consumidor está também ficando cada vez mais exigente. Há quem iguale o café a outras bebidas consideradas nobres, como o vinho. ''Os consumidores brasileiros desenvolveram um paladar mais apurado, ampliando a demanda por cafés gourmet, de alta qualidade. Há 10 anos praticamente não existiam marcas do tipo gourmet. Atualmente temos 80 marcas certificadas como tal'', observa Nathan Herszkowicz, diretor executivo da Abic.
Café consciente
Quando o assunto é qualidade do produto, o arquiteto e designer Christian Steagall-Condé não faz cerimônias: simplesmente recusa um café que não está do seu gosto. ''Uma balconista tremia quando eu entrava, por que eu recusava vários'', lembra. ''Hoje, ela sabe como tirar uma excelente xícara de café.''
Extrair uma boa xícara de café expresso não é tão simples quanto parece. Apesar de ser obtida por uma máquina, é preciso estar atento a vários aspectos, como o tempo e a temperatura, ensina a barista Andréia Cristina Ohya, da Cafeteria O Armazém.
Andréia explica que, na Itália, o trabalho do barista é parte do princípio de um bom café. Lá, segue-se a metodologia dos ''quatro m's'', que correspondem aos pontos principais e influenciam uma boa bebida: a ''miscella'' (que relaciona a mistura adequada de grãos diferentes), a moagem, a máquina e a mão do barista. ''Chegando à perfeição nesses quatro pontos, você não vai pagar R$ 3 por um cafezinho. Vai pagar R$ 3 por um café perfeito. E isso vai te oferecer prazer, você vai ficar com aquela lembrança agradável na boca.''
Como resultado das andanças pela cidade em busca de um bom café, o arquiteto criou até um ranking onde elenca as melhores e piores cafeterias da cidade, que não revela nem sob tortura, brinca. Rigoroso, leva em consideração vários aspectos, entre eles o blend (mistura de grãos na proporção que agrada o paladar) e a procedência, por exemplo.
Para manter o próprio nível de qualidade, Condé resolveu comprar uma máquina de expresso e produzir o seu próprio blend. A mistura ganhou até logomarca e embalagens exclusivas desenhadas pelo arquiteto. A princípio, o blend foi criado para consumo próprio, mas, com o tempo, passou a ser oferecida aos amigos que, segundo ele, aprovaram a bebida.
Para a barista, os consumidores exigentes buscam conhecer mais sobre o que consomem e descobrem que a bebida não tem finalidade apenas de espantar o sono, mas pode oferecer benefícios à saúde. ''Por isso, adotam o café como hábito que dá prazer, valorizando mais o que estão pagando'', argumenta.

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