Jovens se distanciam da escola
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Estudar ou trabalhar. Decidir o melhor desses caminhos sempre foi tarefa difícil para os jovens, acima de tudo os de baixa renda. No Brasil, porém, a situação chegou a níveis alarmantes, como mostram dados divulgados nesta semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que lançou a pesquisa ''Juventude e Políticas Sociais no Brasil''. Segundo o estudo, o País possui hoje população de 50 milhões de jovens (entre 15 e 29 anos), o que representa 26% do total de 190 milhões de brasileiros. A porcentagem dos que frequentavam o ensino superior no ano de 2007, entre 18 e 24 anos, não passava de 13%. Outro dado preocupante: menos da metade dos jovens de 15 a 17 anos está cursando o ensino médio, etapa de ensino correspondente a esta faixa etária.
A situação, que é ainda mais grave nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, pode ser facilmente constatada nas ruas de Londrina. Aos 17 anos, Alan Pinheiro, morador do Conjunto Guilherme Pires (Zona Leste), parou de estudar há três anos e é um dos que engrossam as estatísticas. Quando abandonou os bancos escolares, o adolescente cursava a 5 série. A possibilidade de ter seu próprio dinheiro para se divertir e comprar coisas que gosta foi o que mais pesou em sua decisão. ''Desde os 13 anos costumava fazer uns bicos para conhecidos, para ganhar algum dinheiro. Depois trabalhei como pintor de paredes, em uma lanchonete no shopping, e hoje sou funileiro em uma oficina.''
Atualmente Alan vive um conflito. Ele confessa que às vezes tem vontade de voltar a estudar, e sabe que isso poderia fazer a diferença para o seu futuro, mas desanima quando lembra da falta de interesse que reina nas salas de aula. ''Eu e mais um monte de gente íamos lá só para 'zoar'. Isso desmotivava'', revela o garoto, que ouve constantemente os apelos da mãe para voltar para a escola. ''Sei que cada ano que fico sem estudar, fica mais difícil de voltar'', diz Alan. Com os mais de R$ 700 que ele consegue ganhar por mês, banca suas vontades e ainda consegue ajudar nas necessidades da família.
Na mesma região, no Conjunto Ernani Moura Lima, a FOLHA encontrou três histórias que retratam as principais causas do abandono da escola pelos jovens. Leandro dos Santos Macedo, um forneiro de pizzaria de 28 anos, parou de estudar aos 16 anos, na 5 série, para trabalhar e ajudar o pai a criar a irmã. ''Minha mãe morreu quando minha irmã tinha três anos. Então eu fiquei responsável por levá-la e buscá-la na creche, e passei a trabalhar para ajudar nas despesas.'' Leandro conta que já pensou em voltar para o mundo dos livros e cadernos, mas acha que seria difícil conciliar seus horários, pois diariamente trabalha até de madrugada.
A irmã que o forneiro ajudou a criar, por sua vez, é uma das muitas adolescentes que abandonam a escola para se dedicar exclusivamente à maternidade. Logo que se viu grávida, na época com 15 anos, Elisandra dos Santos Macedo parou de frequentar as aulas. ''Pensava em voltar depois, mas agora estou preferindo começar a trabalhar'', diz a mãe de um bebê de um ano.
Na casa ao lado da que vive a família Macedo, mora a auxiliar de cozinha Denise Antunes de Souza Jacob, de 28 anos. Mãe de dois filhos (de quatro e oito anos), Denise parou de estudar aos 10 anos, quando cursava a 3 série. Motivo: ''Eu fui sendo 'empurrada' pelas professoras. Eu não conseguia aprender, daí não tinha vontade de ir para a escola e faltava muito. Daí tudo foi ficando muito difícil, eu achava que nunca ia conseguir aprender. Acabei desistindo'', conta.
Hoje Denise se arrepende da decisão, e sente falta do conhecimento. ''Meu trabalho agora é lavar louça em uma lanchonete, mas sempre fui empregada doméstica. Para os meus filhos eu quero um futuro melhor, que eles não precisem limpar chão para os outros e aguentar as humilhações que eu já aguentei'', diz, prometendo incentivar as crianças a frequentar a escola. (Com Folhapress e Agência Brasil)


