Jovens se arriscam sobre trens, e registram tudo
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sexta-feira, 07 de agosto de 2009
Omar Godoy<br>Equipe da Folha 
Curitiba No início da década de 90, imagens de jovens se arriscando sobre os trens urbanos da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, correram o mundo. Era o fenômeno do surf ferroviário, que logo se espalhou por outras cidades brasileiras e ganhou destaque na rede de tevê CNN, responsável por uma série de reportagens sobre o tema. Quase 20 anos depois, essa prática perigosa e ilegal está mais viva do que nunca, agora nas composições de carga.
Não à toa, a América Latina Logística (ALL), maior empresa do segmento com base ferroviária, acaba de lançar uma campanha de conscientização para coibir o surf ferroviário. A ação, que prossegue até dezembro, contempla as cidades de Curitiba (e Região Metropolitana), Santos, Sorocaba, Araraquara e Bauru (todas em São Paulo) consideradas de maior incidência.
No Paraná, a companhia registrou seis acidentes com morte desde 2006. Quatro deles ocorreram apenas em dezembro do ano passado, o que indica um aumento no número de praticantes. A última vítima foi Anselmo Rodrigues dos Santos, de 22 anos. No dia 19 de julho, ele teve o corpo partido ao meio depois de cair de um trem no município de Piraquara, a cerca de 20 quilômetros da capital.
Segundo a polícia local, Anselmo estava acompanhado de outros dois rapazes, que fugiram depois do incidente. A família, no entanto, acredita que ele foi assassinado. Uma história complexa, que inclui brigas entre irmãos e acusações de abuso infantil. Uma irmã nossa, que nunca gostou do Anselminho, andou dizendo por aí que ele estuprou a filha dela. Os homens da vila se revoltaram e jogaram ele no trilho do trem, resume Lindemir, outra de suas irmãs.
Seja como for, ela admite que Anselmo tinha o hábito de brincar nos vagões da ALL. A gente sempre aconselhava ele a não fazer isso. Por causa do perigo e porque os seguranças da empresa podiam pegá-lo, diz a moradora da Vila Macedo, em Piraquara.
Anselmo, um adulto, destoa, em parte, do perfil do surfista apresentado pelo departamento de segurança da companhia: crianças e adolescentes carentes de regiões cortadas por linhas férreas. E basta uma rápida pesquisa na internet para perceber que a prática também é adotada por jovens de classe média. Só na rede social Orkut, há mais de 20 comunidades sobre o tema cadastradas. Sem contar os vídeos postados no YouTube com registros de aventuras
(leia mais nesta página).
Carolina Goulart, coordenadora dos programas de segurança da ALL, afirma que conhecia as comunidades virtuais dos surfistas mas não imaginava que eles também se exibem no portal de vídeos. Ela explica que as ações de conscientização são desenvolvidas dentro das comunidades, por meio de palestras e da distribuição de materais educativos. Os garotos sobem nos trens pela adrenalina, porque não têm outras opções de lazer, diz.
Carolina ainda conta que, no interior de São Paulo, a ALL presenteou crianças com bolas, e isso diminuiu a incidência da prática. Mas como chamar a atenção dos jovens mais abastados, que têm acesso à internet e câmeras de vídeo? Segundo a coordenadora, o mapeamento das áreas de risco feito pela companhia não apontou surfistas com o perfil identificado pela reportagem e, portanto, ainda não há qualquer tipo de ação voltada para esse público. (Colaborou Diego Ribeiro)


