Um chamado que não se ouve com os ouvidos. Apesar da frase ser de difícil compreensão para a maioria das pessoas, talvez ela exprima o sentimento de jovens que decidiram estudar para ser padre. Ainda na adolescência normalmente com 15 anos, em média , eles garantem que ouviram esse chamado, que consideram divino.
Dartagman Norberto, 26 anos, há três saiu de Santa Terezinha, Paraíba, para vir a Londrina, e desde o começo do ano estuda no Seminário Propedêutico São José. ''Com uns dez anos queria ser médico. Minha mãe incentivava. Até porque na Paraíba ser padre é uma responsabilidade maior que ser doutor, e ela achava que eu não ia dar conta'', brinca. Ele explica que onde nasceu, a figura do padre é importante, pois é uma pessoa respeitada tanto pelo conhecimento que possui, quanto por ser um representante divino.
Para tentar explicar o sentido da vocação, Marcos Roger Ribeiro, 18 anos, recorre a duas figuras reconhecidas mundialmente pela sua dedicação ao conforto alheio: o Papa João Paulo II e Madre Teresa de Calcutá. ''Eles se despojaram da própria vida pelo outro. Isso é o que o chamado vocacional representa para a gente: sair de nós para ajudar o próximo'', tenta resumir. O colega, Fábio César Lopes, 24 anos, acrescenta: ''É querer o bem do outro, incondicionalmente''.
Mas esses passos cristãos não poderiam ser dados sem renúncias, tal qual o próprio mestre fez. Os três seminaristas, talvez representando os outros 25 que são mantidos pela arquidiocese, e os quase 70 que estudam nos dois seminários diocesanos de Londrina (São José e Paulo VI), são uníssonos ao dizer que deixaram muita coisa de lado para seguir a vocação. ''Os apelos externos da modernidade são grandes e facilmente tiram os jovens deste caminho. Mas saber que estamos lutando para fazer o bem a várias pessoas é bastante gratificante'', explica Lopes. Para Norberto, a maior provação foi deixar a família e os amigos. ''Se engana quem pensa que o mais difícil é não namorar. Existem muitas renúncias pequenas, diárias.''
O mais novo dos três chama a atenção para a visão que a sociedade faz dos seminaristas. ''Muitas pessoas ainda têm uma visão antiga do seminário. Acham que ficamos enclausurados aqui, e não é assim que funciona. Temos TV, computador, saímos, praticamos esportes, tanto quanto qualquer outro jovem'', afirma. A rotina no seminário propedêutico possibilita atividades que vão além do sacerdócio. Logo pela manhã às 6h30 eles têm a primeira missa, depois estudam durante a manhã e a tarde. À noite têm atividades esportivas ou culturais. Nos fins de semana participam das pastorais da Igreja e, vez ou outra, são dispensados para visitar a família.
Para se tornar padre, os jovens enfrentam oito anos em média de estudos. Na Diocese de Londrina, no primeiro ano participam de uma convivência vocacional: mensalmente realizam atividades junto aos seminaristas. Se decidirem ficar, no ano seguinte se instalam no seminário propedêutico onde vão estudar matérias introdutórias. Depois cursam três anos de filosofia na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Maringá, e mais quatro anos de teologia na PUC Londrina.
Os três seminaristas não acham demais tantos anos de estudo. ''Assim como os outros jovens que ainda não encontraram sua vocação, mas certamente o farão com o matrimônio e a escolha da própria profissão foi uma opção que fizemos porque gostamos, então a dedicação vale a pena'', garante Fábio Lopes.
Tanta dedicação, às vezes, pode fazer efeito contrário. A secretária do Serviço de Animação Vocacional (SAV), do Centro de Pastoral Jesus Bom Pastor, Maria Aparecida de Souza, lembra que no ano passado a igreja fez uma campanha para estimular a procura de jovens pelo seminário. ''Colocamos outdoors chamando para a vocação. Muitas ouvem o chamado mas não procuram a gente. Na ocasião, chegamos até a receber mais de 300 ligações, mas poucas pessoas de fato entraram para o seminário'', diz. Apesar disto, em 15 anos que trabalha no SAV, ela afirma que o número de seminaristas aumentou, mas as ordenações ainda continuam poucas. Dos doze seminaristas que entraram há dez anos, apenas três foram ordenados padres em 2006.

mockup