Andar quilômetros a pé todos os dias para cumprir uma obrigação que necessariamente não estava nos planos de juventude de um londrinense. Filho de uma família sem posses, ele adiou seus próprios sonhos e tem que literalmente pagar para completar o serviço militar obrigatório no Tiro de Guerra de Londrina (Zona Sul). Já seria triste se o caso fosse isolado mas muitos outros jovens estão na mesma situação.
Por causa das represálias, o jovem esconde sua identidade, sua história de vida e a própria dignidade como cidadão para denunciar que não suporta mais bancar os custos com a rotina do TG e as humilhações sofridas durante a instrução. Ele e a irmã sobrevivem com a renda de mais ou menos um salário mínimo que a mãe consegue como diarista. Os três moram numa casa simples de apenas três cômodos numa bairro carente.
Mas tal situação é simplesmente ignorada pelo Estado que obriga todo jovem brasileiro, ao completar 18 anos, a cumprir o serviço militar obrigatório. ''Eu vou a pé todo dia para o TG porque eles não dão o passe de ônibus e eu não tenho como pagar'', afirma o rapaz. Ele não pode destinar R$ 60 mensais para usar o transporte coletivo porque está desempregado. ''A gente vai nas empresas e deixa o currículo, eles falam que vão ligar mas nunca ligam. Ninguém quer um empregado que passa a madrugada acordado, vai direto para o emprego e não produz o que precisa. Três colegas meus foram demitidos por causa disso'', comenta.
Mesmo cortando gastos essenciais, o TG custa dinheiro para o jovem. Isso porque conforme a disciplina militar, os cabelos precisam estar impecavelmente curtos todo o tempo. Para isso, no entanto, um cabeleireiro particular vai até o TG duas vezes ao mês e cobra R$ 14 para passar a navalha nos cabelos dos 202 atiradores, que têm direito a disparar apenas quatro tiros durante todo o período de instrução, que vai de 1º de março até o início de dezembro, das cinco às sete horas.
Além da falta de emprego, o jovem interrompeu os estudos e teve que adiar os sonhos de dar uma vida mais próspera para ele e para a família. ''Não dá, a gente só se prejudica. Aquilo ali não dá futuro para ninguém'', lamentou. Ele sugere que o TG deveria oferecer o benefício da carreira temporária - semelhante ao que acontece nos batalhões das Forças Armadas -, onde todos teriam direito a uma remuneração. Ele diz que um grupo pensou até em fazer uma greve geral mas a idéia foi abortada por causa do risco de prisão.
Em abril deste ano, a FOLHA publicou matéria mostrando que os ''atiradores'' não eram alimentados nem antes nem após o período de instrução e que muitos seguiam direto para a escola ou para o trabalho com fome. Um grupo de mães arrecadou alimentos e promoveu um café da manhã para os jovens e chamou a atenção dos produtores rurais para contribuírem. Até agora, porém, nada mudou.

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