Há pelo menos seis meses preso à rotina de internações para tratamento de leucemia, o estudante Caio Delfiol, 14 anos, se vê numa situação outrora impensável: está sentindo falta da escola. Embora admita que não era ''muito fã'' dos estudos, o jovem, que só conseguiu frequentar a classe de 1 série do Ensino Médio durante uma semana, está preocupado com o futuro. ''Sei da importância de estudar para ser alguém na vida. Fica feio perder um ano inteiro.''
Para garantir o acesso de jovens hospitalizados à educação, um direito previsto na própria Constituição, um projeto do governo estadual está levando professores para o Hospital Universitário (HU) de Londrina. Uma equipe do Núcleo Regional de Educação (NRE) visitou ontem a futura sala de aula do HU e informou que as classes devem ter início na próxima segunda-feira.
Segundo a coordenadora do Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar (Sareh), Shirley Alves Godoy, o trabalho irá começar com uma pedagoga e três docentes de ciências gerais, língua portuguesa e ciências humanas. Por enquanto, o público irá abranger somente alunos de Ensino Fundamental (a partir da 5 série) e Médio. ''As aulas de 1 a 4 série dependeriam de convênio com a rede municipal. A prefeitura já foi convidada e mostrou interesse'', assinalou.
A assistente social do HU Renicler Oliveira de Assis disse que só a partir de agora será possível levantar o número de pacientes contempláveis no projeto. ''Sabemos que é uma demanda significativa. Mas cada caso terá que ser avaliado antes da liberação do paciente para as aulas'', ponderou. Além de uma sala de aula com carteiras e material pedagógico, Shirley adiantou que alguns pacientes poderão ter aulas sem sair da cama. ''O Estado está licitando a compra de notebooks para esse fim'', ressaltou.
A pedagoga do Sareh, Rosângela Pereira da Silva Benfatti, sairá em busca dos ''pacientes-alunos'' todas as manhãs. Embora um pré-requisito para participar das aulas seja estar matriculado na rede de ensino, ela afirmou que o projeto poderá beneficiar adolescentes que estão fora da escola. ''Quando soubermos de casos assim, vamos tentar matriculá-los novamente'', comentou. A inclusão nas aulas independe do tempo de internação e do município de origem do aluno. A carga-horária será contabilizada no currículo escolar.
''É uma ação importante porque todas as vezes que um aluno fica hospitalizado, ele perde o estímulo para estudar e se sente excluído'', defendeu a professora Rubinéia Aparecida Lopes, selecionada para lecionar ciências humanas no HU. Prestes a deixar o HU depois de 15 dias internado, Thiago José Hernandes Vieira, 12 anos, também valorizou a iniciativa. ''É legal porque você não tem o trabalho de botar toda a matéria em dia quando recebe alta, como eu vou ter que fazer.''

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