Jovens fazem pesquisa como gente grande
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sábado, 24 de março de 2007
Thiago Nassif<br> Reportagem Local 
A idade, ainda pouca. O talento, de gente grande. Premiados na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia, a Febrace, promovida por uma universidade de São Paulo, três londrinenses partiram da mesma premissa: pensar no geral e agir na esfera local.
Aos 15 anos, Amon Ramysés Rodrigues cursa o primeiro ano do Ensino Médio. Em meio a seis horas de estudos no colégio e a três horas de preparativos para o vestibular, o rapaz encontrou tempo para estudar o fundo de vale do Córrego Bom Retiro (Vila Marízia), um dos locais de risco de Londrina, afetado pelo desmatamento.
''Dei continuidade ao estudo de duas amigas minhas, que estavam avaliando o nível de taninos, substâncias que as plantas produzem para espantar seus predadores. Minha pesquisa foi voltada para a análise do nível de glicosídio cianogênico, que forma o ácido cianídrico, o mesmo utilizado nas câmaras de morte da 2Guerra Mundial''.
Após constatar a alteração, Amon parte, em breve, para a análise toxicológica, que verifica a toxidade da planta. ''A partir daí, poderemos saber qual o nível que é considerado tóxico, e que faz mal para um ser. Com isso, teremos uma idéia de quanto e como a poluição interfere no ciclo da planta e, principalmente, como evitar que isso aconteça''.
Preocupado com o ar e com o ambiente que sua geração e as que vêm por aí vão respirar, Amon acredita que, com o projeto, delineando níveis e escalas a partir da vegetação, a população tome consciência: revitalizar é preciso.
Com 15 anos, Lucas Marder de Oliveira Reis pautou seu projeto na análise das praias do litoral paranaense. Qualidade de vida para os banhistas? Projeto de verão? Nada disso. Aluno do segundo ano do Ensino Médio, Lucas foi além. ''O trabalho consiste na análise das praias, a partir de microorganismos aquáticos, um excelente bioindicador. A intenção é analisar a praia não somente sob o ponto de vista do lazer, se está própria para banho ou não. E sim se os peixes lá pescados estão aptos para o consumo, e como está a qualidade de vida nesse local''.
A idéia de Lucas deu tão certo que uma escola de Fortaleza, no Ceará, está de olho na iniciativa do rapaz. A proposta é desenvolver o trabalho com todas as escolas do litoral do Brasil. Diante do êxito, ele tem na ponta da língua a carreira que almeja seguir. ''Quero fazer oceanografia e depois entrar para a Marinha e ir para fora do país, fazer outras pesquisas''.
Rodrigo Franco Ferreira, 16 anos, voltou seu olhar para o controle biológico das pragas que atuam na cultura da soja. Deu certo. Está de malas prontas para os Estados Unidos. Em Albuquerque, no Novo México, participa de uma Feira Internacional. ''Tentamos trazer para a cultura da soja o controle biológico, que é a utilização de um organismo parasita e predador, que combate e age em cima de outro microorganismo, no caso, que está fazendo mal à lavoura. O caráter inédito está em trazer o fungo do gênero tricoderma para a soja'', conta.
Tendo a Embrapa como território fértil para o desenvolvimento de seu projeto, Rodrigo acredita que, com a eficácia da ação do fungo, o agricultor reduziria os gastos com agrotóxicos. ''Antes da plantação da soja, por exemplo, temos no Paraná um sistema de rotação de culturas. Fizemos um estudo dessas plantações intermediárias, como aveia, milho e trigo, se elas favorecem o desenvolvimento do tricoderma. Quando chegar o verão, por exemplo, o solo vai estar cheio de tricodermas, que atuam em relação a essas pragas''.
Para a assessora pedagógica Sílvia Helena Raimundo Carvalho, os garotos se enquadram no novo modelo de ensino. ''A escola de hoje em dia precisa fugir dessa lógica cerceante, reprodutivista, que leva a estudar só o que está no livro, para passar no vestibular''.
Professor de Amon, Lucas e Rodrigo, Fábio Luiz Bruschi credita as conquistas dos rapazes às idéias que têm. ''A grande vantagem é que eles não têm medo de errar. Eles são curiosos, não param de perguntar, de questionar, querem buscar soluções. Essa é a grande vantagem. Mais vale um oceanógrafo realizado, fazendo o que quer, do que um médico frustrado''.


