Jovens encaram vida dura longe de casa
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de abril de 1998
Israel Reinstein 
Um levantamento da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba, indica que a metade dos 25 mil estudantes da instituição veio de outras cidades. Sem parentes na cidade, a maior parte deles vive em apartamentos alugados, mora em repúblicas ou divide quartos em uma das casas de estudantes da cidade.
Sem a comodidade que tinham quando moravam com a família, esses estudantes têm uma vida que em geral é mais dura que a dos outros. Têm que resolver sozinhos os problemas do dia-a-dia, como pagar suas contas e bancar a alimentação, entre outras tarefas, antes deixadas a cargo dos pais.
Não é o fim do mundo, mas a maior aventura de minha vida, afirma Luiz Carlos Carvalho, 20 anos, estudante de administração. Há três anos em Curitiba, Luiz deixou Telêmaco Borba (Norte Velho) aos 17 anos, para viver numa república, com mais três amigos. Claro que a casa de mamãe é melhor, mas o fato de você ter que administrar a sua vida significa um passo a mais na sua independência, diz.
Luiz acredita que muitos que enfrentaram essas situações e conseguiram se formar despontaram mais tarde em suas áreas. O conceito do estudante está certo e pode ser exemplificado na vida do ex-governador José Richa, do ministro Reinhold Stephanes ou do deputado Orlando Pessutti. Todos eles batalharam quando estudantes, vivendo em repúblicas e enquanto trabalhavam para se sustentar.
Alimentação - Os moradores das casas de estudantes são exímios em fazer mágicas com o dinheiro que ganham de seus pais ou dos bicos que conseguem. As mesadas variam de R$ 150,00 a R$ 360,00. Tem alguns que ganham mais, porque seus pais têm melhores condições de vida, comenta a estudante de Química Adriana Aparecida Godói.
Uma das fontes de renda mais disputada pelos estudantes são as bolsas-auxílio ou de estudos ofertadas pela UFPR. Atualmente, 1.080 pessoas recebem algum tipo de auxílio, seja em bolsa de extensão, trabalho, iniciação ou científica. A procura pela bolsa-auxílio, destinada a quem tem poucos recursos, dobrou nos últimos quatro anos, relata o coordenador de Assuntos Comunitários da UFPR, Ivan Domingos Carvalho. Em 1994, 550 alunos se inscreveram para concorrer a uma das 250 bolsas. Em 1998, a fila deve ser chegar a mil, para uma ajuda de R$ 120,00.
Um das táticas para se sustentar é comer no Restaurante Universitário. Cada refeição custa R$ 0,80. São servidas 3 mil refeições por dia. Na maioria dos casos, é nelas que os alunos conseguem comer a única quantidade de proteína diária, informa Ivan. Outra é ser rato de vernisage. Sei onde acontecem todas as inaugurações, onde aproveito para comer determinadas comidas, como os petit-fours, que só teria em festa na casa dos meus pais, diz Carlos Laureni, estudante de Letras.
Quando é para se divertir, o dinheiro tem que ser bem administrado. Você consegue ir em alguns shows ou espetáculos usando convites que correm entre os alunos que vivem nas casas de estudantes, conta Mirian Toshiko Sewo, estudante do terceiro ano de Psicologia.


