Curitiba - Na fila das crianças e dos adolescentes que esperam para serem adotados, alguns carregam um peso extra: são portadores do vírus HIV. A carga negativa e o preconceito associados à Aids fazem com que esses jovens sejam desprezados pela maioria dos interessados em uma adoção.
A jornalista Dayane Carvalho lançou em 2008 o livro-reportagem ''Adoção PositHIVa: adoção de crianças e adolescentes portadores de HIV/Aids em Curitiba'', no qual traçou um perfil de pais que adotaram filhos soropositivos, de mães que transmitiram o vírus para os bebês e de crianças e adolescentes que esperam por uma família.
''Os efeitos da Aids na vida de crianças e adolescentes brasileiros são devastadores. A doença afeta a saúde dessa população quando são infectados pelo HIV pela mãe e compromete sua estrutura familiar quando ficam órfãos'', descreve a jornalista, que destaca que as adoções de crianças portadoras do HIV são muito raras e as de adolescentes ainda mais.
''Normalmente quem tem interesse em adotá-los são voluntários que frequentam as casas de apoio, convivem e se apaixonam pelas crianças. São pessoas especiais que desejam muito ser pais e mães acima de qualquer condição, cor da pele ou sorologia'', relata Dayane.
A Associação Paranaense Alegria de Viver (Apav), criada há 16 anos em Curitiba, atualmente abriga 19 crianças e adolescentes soropositivos. Segundo a presidente da instituição, Maria Rita Teixeira, desde a criação da Apav, aproximadamente 30 jovens portadores do HIV foram adotados.
''No início, em nenhum momento pensei em preparar crianças para adoção. Eu queria salvar vidas. Eram crianças que chegavam muito debilitadas e discriminadas. No decorrer do trabalho, foram acontecendo as adoções. Há o benefício da adoção direta, feita por voluntários que se apaixonam pelas crianças e decidem adotá-las. As crianças não precisam aguardar numa fila de espera'', explica a presidente.
A própria Maria Rita adotou uma criança soropositiva, hoje com 11 anos. ''Por ser presidente da Apav, acharam que eu poderia estar me favorecendo. Por isso, houve um processo muito detalhado, foram feitos vários procedimentos para verificar se o menino era realmente soropositivo. Foram uns dois anos de espera. Ele tinha problemas sérios e necessitava de cuidados específicos. A minha filha é profissional de saúde, e ele precisava ser acompanhado dia e noite. A gente acabou se apaixonando por esse guerreiro. Eu já estava na idade de ser avó e não passava pela minha cabeça a ideia de uma adoção. Batalhamos por ele. Vimos desde o primeiro momento que ele tinha uma ligação muito forte com a gente'', descreve Maria Rita. (F.G.)

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