Isabel (nome fictício) tinha 13 anos quando ingeriu bebida alcóolica pela primeira vez. Hoje, aos 15, toma cerveja ou cachaça sempre que sai com os amigos ou vai a alguma festa. Sua mãe bem que tenta proibir, mas a garota não tem dificuldade em beber escondido. Isabel que começou a beber para ''se sentir bem'' e porque todos os amigos bebem e ela não quer ''ficar de fora'' contribui para o aumento de uma estatística alarmante no País: atualmente 48,3% dos adolescentes (52,2% dos meninos e 44,7% das meninas) tomam bebidas alcoólicas.
Os dados são do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), da Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp). Uma pesquisa feita em 107 cidades brasileiras com mais de 200 mil habitantes, mostra que a dependência do álcool, que era de 5,2% na faixa etária de 12 a 17 anos em 2001, está aumentando a cada ano. No Nordeste, este índice já chega a 9,3%.
Os motivos, na opinião do médico hebeatra (especialista em adolescentes) e presidente da Associação Brasileira de Adolescência (Asbra), Walter Marcondes Filho, estão, em parte, na permissividade de pais e sociedade e na falta de perspectiva dos jovens. ''A realidade é muito dura, e eles tentam fugir cada vez mais dela.'' Ingredientes como desamor, desamparo, angústia, falta de regras, banalização do sexo, desagregação familiar e falta de fiscalização no comércio também contribuem.
Mas o médico, que ainda é coordenador do Centro de Referência do Atendimento ao Adolescente de Londrina (Craal) e presidente da Confederação da Adolescência e Juventude da Íbero-América e Caribe (Codajic), observa que o problema está crescendo mais entre as garotas. ''O jovem sempre bebeu muito, só que este comportamento não era tão escancarado e ficava mais restrito aos rapazes. Hoje as meninas praticamente se igualam aos garotos. Talvez bebam em menor quantidade, mas com a mesma frequência que eles.''
Marcondes critica a hipocrisia existente em relação ao assunto: ''Se o Governo realmente não quer que o jovem beba, deve proibir as campanhas publicitárias que incentivam este comportamento, como se faz com as drogas, e investir em campanhas de prevenção.'' Mas não é só. Ele vê como fundamental o combate a outra chaga da sociedade: a corrupção. ''Parece que todo mundo resolveu 'chutar o balde' e os princípios éticos e morais não valem mais nada. O jovem está perdido neste emaranhado. O álcool é apenas uma das vertentes para as quais ele canaliza sua angústia'', observa o hebeatra.
O psicanalista carioca João Batista Ferreira, recomenda muita vigilância, porque a bebida funciona como expediente automático de auto-afirmação. ''Meninos e meninas bebem igual, sem mais diferença entre bebidas fortes e leves, para preencher um vazio que antes se compensava com um ideal político, ideológico ou literário.'' Como o álcool tem efeito passageiro e artificial, diz o psicanalista, os adolescentes logo buscam outras drogas. ''Não é uma escalada obrigatória, mas é bastante comum.''
A psiquiatra londrinense Maria Angélica Gambarini tem posição semelhante: ''Não dá para afirmar, mas podemos inferir que o álcool abre portas para outras drogas, pois são jovens que se afastam mais facilmente da família, se aproximando de grupos que oportunizam o uso de substâncias psicoativas. Os hábitos sociais destes jovens estão sempre vinculados a algum tipo de intoxicação.''
Segundo a psiquiatra, o efeito das bebidas alcoólicas no organismo dos adolescentes e jovens é nefasto. ''Eles não têm os órgãos totalmente maduros, e a agressão contínua pode levar a processos inflamatórios nas células do fígado e do cérebro, por exemplo.'' A médica observa que quanto mais cedo se começa a beber, mais cedo e com mais intensidade virão os problemas.

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