Londrina - Ah, se eu tivesse meus dezoitos anos! A frase nostálgica dita por muitas pessoas que já passaram dessa fase remete ao sabor poético que a juventude representa: uma época de curiosidade pulsante e de vivência intensa. Juventude que, para muitos, é sinônimo de descoberta, de novas experiências permeadas pela ânsia constante em realizar o máximo de coisas possíveis, de conhecer pessoas e lugares, de diversão sem hora para acabar.
Na contramão dessa realidade, há quem abra mão de tudo isso em busca de outra descoberta. São jovens de diferentes etnias, culturas, religiões, que se privam do convívio da família, dos amigos, de ter uma carreira tradicional, em nome de uma crença que, segundo eles, tem um propósito maior de vida. Suas escolhas causam principalmente curiosidade ou reprovação em quem não compartilha o estilo de vida. A FOLHA entrevistou três pessoas para mostrar um pouco de suas realidades.
Quem passa pelo centro de Londrina já viu vários deles andando, muitas vezes descalços, com um hábito marrom e tonsura - corte de cabelo na parte superior da cabeça feito nos clérigos. São os irmãos da Toca de Assis, um instituto de vida religiosa, que é uma ramificação franciscana da Igreja Católica, em que as pessoas vivem para o carisma de fraternidade, ou seja, seu trabalho consiste em cuidar dos pobres e necessitados. Eles fazem voto de pobreza, têm uma semana de descanso e não podem ter relacionamentos amorosos.
Marcos, que hoje é chamado pelo nome de irmão Emanuel Maria do Deus do Sacrário, deixou tudo na cidade de Cabo Frio (RJ) com apenas 17 anos. Hoje, com 21, é o guardião de uma das casas de Londrina. "Quando tomei a decisão, ainda estava na escola. Tinha uma vida normal, cheia de amigos, com planos de cursar uma faculdade de História. Mas, o desejo de fazer algo por alguém me inquietava. Tive a coragem de deixar família, namorada, para doar minha vida por algo louvável, que me completasse", argumentou.
Além de cuidar dos enfermos e desabrigados, eles também são encarregados de levar a palavra de Deus. "Somos responsáveis pelo cuidado dessas pessoas, que há anos viviam nas ruas. Trabalhamos de forma a ajudá-las a resgatar sua dignidade e até mesmo a integração na sociedade. Mas, acima de tudo, nossa missão é amá-los, sem esperar nada em troca", disse Emanuel.
Ele comenta que sente falta da família, mas tudo é compensado com a alegria que o trabalho lhe proporciona. "Tive dificuldades de adaptação no início, porém quando parava para pensar na felicidade que tudo isso me trazia, não tinha dúvidas que havia feito e decisão correta. É muito gratificante ver a mudança de comportamento e da esperança que é devolvida aos abrigados. Não era infeliz na vida que tinha antes, mas sou muito mais feliz agora."
Em Londrina, existem cinco casas e cerca de 30 religiosos que realizam atividade na cidade. A casa em que vive Irmão Emanuel, no centro, possui 27 pessoas acolhidas e mais sete religiosos. Tanto os reliogiosos, quanto os abrigados moram na mesma casa.

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