Medo de assalto e oração pelos bandidos. Agradecimento a Deus pelos dias que não era vítima de roubo. Foi assim que Luis Carlos Gonçalves registrou em seu diário a insegurança que vivia. O jovem de 31 anos foi morto com um tiro, durante o assalto em sua própria sorveteria, no Jardim Castelo, Zona Leste de Londrina, no dia 21 deste mês. Em seus escritos ele registra a tensão de trabalhar sob a mira dos ladrões.

18 de fevereiro de 2010
Dia + ou -,
Medo de assalto.
Mas graças a Deus não aconteceu.
Que Deus abençõe os bandidos.
(trecho do diário de Luis Carlos)

O comerciante tinha uma rotina puxada. Parava o trabalho às três da manhã. Já havia sido assaltado outras vezes e por conta disso havia instalado um sistema de câmeras no comércio. Fechava a sorveteria depois da meia-noite e levava os funcionários embora. Voltava sozinho, a pé. ''Quando chegava trabalhava quase a madrugada toda, fabricando sorvete. Não demonstrava cansaço. Não reclamava do trabalho. Sempre foi corajoso. Só lamentava a falta de segurança no bairro'', conta a mãe de Luis Carlos, Ema Gonçalves, que mostrou à reportagem os registros.

Em seu diário, o comerciante registrava o cotidiano da sorveteria, os dias que tinha boas vendas e os dias de chuva, quando fechava mais cedo. A cada registro, pedia a bênção de Deus para os funcionários, à família, vizinhos e outras pessoas que estivessem enfrentando algum problema.

Como um observador, usava o diário para detalhar os acidentes, brigas e festas que aconteciam próximas ao seu comércio. Para cada registro, uma oração. ''Quando encontrei o diário eu quis mostrar para toda a família. Nas palavras do Luis Carlos a gente vai vendo como ele tinha o coração bom e pensava nos outros'', afirma Ema.

Os vizinhos já tinham ouvido o comerciante reclamar da insegurança. Iraci Tonon conta que Luis Carlos deixava uma caixa com trocados para os bandidos e que lamentava a situação. ''Ele se indignava com os roubos. Como era muito trabalhador não aceitava que alguém vivesse do fruto de furtos.''

Os jovens identificados pela polícia como autores do latrocínio já eram conhecidos pela família de Luis Carlos. O mais velho jogava futebol em uma quadra próxima à sorveteria e, quando terminava o jogo, passava pedindo sorvete. ''Nunca negamos. Eu até brincava que ele ficaria famoso. Seria o próximo Robinho'', afirma Gerônimo Alves Gonçalves, pai da vítima.

Solidariedade

A bondade de Luis Carlos era conhecida. ''Parte do leite que ele comprava para fabricar os sorvetes era doado para as pessoas. Quem precisava de algum remédio e não tinha como comprar, levava a receita e ele mesmo corria atrás'', conta Dora Alves Marques Gonçalves, cunhada da vítima.

''O que ele ganhava não era para ele. Ele ajudava em casa e a quem pedisse. O meu filho trabalhava desde os 12 anos. Só sabia trabalhar, estudar e ir à igreja. A dor que sinto agora é porque não tenho mais meu filho pedindo a bênção de manhã. As páginas do seu diário vão ficar para sempre em branco'', lamenta Ema Gonçalves. ''Eu não sinto ódio, mas a dor da lembraça de ver meu filho morto, caído no chão.''

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