Londrina

Paulo WolfgangDireitoKarina com a filha, o marido e a mãe: ‘É até uma questão de cidadania buscar meu verdadeiro pai’‘‘Eu quero ser reconhecida como filha, pois é um direito que tenho como pessoa e cidadã. Nada vai impedir que busque esse direito.’’
A afirmação é de Karina Matos Ferreira Mazieiro, 24 anos, estudante da faculdade de Letras na Universidade Estadual de Londrina. Ela diz que há cinco anos vem lutando para ser reconhecida como filha do promotor aposentado e pecuarista Ruy Cunha. O processo tramita na 1ª Vara de Família de Londrina e recentemente ela conseguiu sua primeira vitória na Justiça: o resultado dos exames de DNA foram positivos.
Os exames foram realizados nos Estados Unidos (Fundação Ayush Morad Amar), encaminhados pelo laboratório Laborgene, e confirmaram que Ruy Cunha é pai de Karina. O processo tramita em sigilo e, devido a pedido de agravo por parte de Ruy Cunha, o Tribunal de Justiça julgará se será feito novo exame de DNA.
‘‘Foi uma das coisas mais lindas que aconteceram em minha vida, apesar de minha mãe esconder esse fato por 18 anos’’, comentou Karina. Ela ficou sabendo da existência de Ruy Cunha quando ainda era criança e por diversas vezes o visitou junto com a mãe, Maria Carmem Matos, 55 anos. Até então, Karina tinha Ruy Cunha como um grande amigo da família. Ela disse que na época a família estava morando em Aracaju (SE) e quando vinha a Londrina não deixava de visitar o amigo. ‘‘Estávamos passando necessidade e eu avançava nas coisas boas que encontrava na geladeira durante as visitas. Eu era repreendida pela minha mãe, mas ele achava muita graça e me incentivava a comer mais.’’
Karina ficou revoltada com a mãe ao receber quem era seu pai. Até então, ela pensava que seu verdadeiro pai era o marido de Maria Carmem, um corretor que morou em Londrina. Há mais de cinco anos ele constituiu outra família em Rondônia. Ela conta o que sentiu ao receber a notícia: ‘‘Parecia que o mundo havia caído sobre sua cabeça’’. Depois, veio a revolta contra a mãe - por ela não ter contado o segredo antes.
‘‘Achei que tanto o doutor Ruy quanto minha mãe eram dois hipócritas e não possuíam nenhum sentimento em relação a mim. Achei ridículo que ela tenha contado a história por uma carta, apesar de estarmos morando juntas em Aracaju.’’ Karina disse que precisou de um bom tempo para aceitar a situação.
Maria Carmem conta que viveu uma grande grande paixão por Ruy Cunha quando tinha 25 anos. Ela diz que em 1968 estava terminando um casamento e vendia livros. Por amigos comuns, conheceu o então promotor. Na primeira visita vendeu-lhe muitos livros e depois continuou a frequentar seu apartamento. Maria Carmem lembra que passou a cuidar da casa de Ruy Cunha - inclusive da decoração. Em 1973, ela engravidou. Quando contou ao promotor, ele lhe teria dito que ‘‘não queria problemas’’.
Numa parte da carta que escreveu a Karina, ela conta que, como ‘‘prova do amor pelo pai de sua filha’’, tentou afastar-se dele. ‘‘Fui para Aracaju arrasada, mas ao mesmo tempo resignada. Eu era uma simples vendedora de livros. Ele era promotor e muito bem relacionado na cidade. Guardei o segredo, pois não queria magoar minha filha.’’ Maria Carmem enfatiza que, quando iniciou o namoro com Ruy Cunha, seu casamento já estava terminado.
Segundo ela, quando Karina fez 15 anos, ligou para Ruy Cunha e marcou um encontro a três. ‘‘Ele me encontrou numa lanchonete. Naquele dia não sei como contive minhas emoções. O doutor Ruy, ao ver Karina, ficou muito perturbado. Ele não falou muito mas acho que sua perturbação foi motivada pela fisionomia de Karina - que é muito parecida com ele.’’ A mãe conta que, depois daquele dia, Ruy Cunha não quis mais recebê-la. Por causa disso, sentiu medo de contar a verdade à filha, e que ela sofresse mais uma decepção. Maria Carmem diz que preferiu contar a história por carta para não se confrontar diretamente com a filha.
Mãe e filha contam que viveram por muito tempo um dilema, pois não sabiam como agir. ‘‘Eu cheguei a me arrepender de ter contado a verdade, pois estava passando um grande problema para minha filha. No fundo eu tinha a esperança que o doutor Ruy iria reconhecer a filha, mas também não descartava a hipótese de que ele renegasse a menina’’, diz Maria Carmem.
Ao saber do pai, Karina tomou a resolução de vir procurá-lo. ‘‘Vim estudar aqui em Londrina, onde trabalhei e estudei para fazer o vestibular. Um dia tomei coragem e fui até a casa de meu pai para dizer-lhe que o amava. Na entrada do apartamento fui bem recebida por ele, mas quando questionei-lhe a respeito da paternidade ele mudou o comportamento. Tentei explicar-lhe que não tinha interesse em seu dinheiro, apenas queria ter um pai; mesmo que oficialmente não fosse passado no papel. Vagamente ele me respondeu que iria pensar e eu fui embora’’, conta Karina. Ela afirma que outras vezes tentou falar com Ruy Cunha por telefone, mas ao se identificar o aparelho era desligado.
Karina diz que sempre procurou Ruy Cunha sem nunca pedir-lha nada. Garante que só queria ter um pai. ‘‘É uma questão até de cidadania buscar meu verdadeiro pai. Acho que qualquer pessoa tem este direito. Minha filha também tem o direito de ter um avô. Não estou pensando nos bens que ele possui, apenas quero ser reconhecida como filha’’, ela insiste. Karina está casada com Norivaldo Mazieiro e tem uma filha. Por parte de mãe, ela tem duas irmãs mais velhas, que lhe deram bastante apoio nos momentos mais difíceis.
Ela conta ter esperado por três anos para contratar um advogado na tentativa de provar a paternidade de Ruy Cunha. A última convocação, feita em 17 de setembro deste ano pelo juiz da 1ª Vara de Família, Marco Antônio Massanero, foi suspensa. Na ocasião, foram intimadas três testemunhas de Ruy Cunha e três testemunhas de Karina. Ela revela que o dinheiro para contratar advogado e mandar fazer os testes de DNA foi conseguido junto a amigos, que não esperam recebê-lo de volta.
No processo são relacionadas diversas pessoas como testemunhas a favor de Ruy Cunha: seus antigos amigos e companheiros. Uma dessas pessoas, que pediu para não ser identificada, afirmou que a fortuna dele chega a mais de R$ 2 milhões em propriedades e aplicações financeiras. Somente no Norte Pioneiro ele é proprietário de uma fazenda de gado com 4 mil hectares.
A Folha tentou falar com Ruy Cunha, mas foi informada de que ele está doente e impossibilitado de dar entrevistas.

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