Jovem pede ajuda para fugir do vício
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de dezembro de 1998
Lucilia Okamura 
Quero viver, mas tem uma droga em minha vida. Procuro um internamento, mas não posso pagar. Me ajude.
O apelo que A.P.F., 20 anos, de Londrina, queria publicar esta semana na Folha, foi a forma encontrada para tentar se livrar das drogas. Viciado em crack há cerca de dois anos, o rapaz diz que está decidido a se recuperar, mas sabe que somente boa vontade não resolve. Preciso me internar, afirma, com convicção.
Morador da zona oeste de Londrina, A.P.F. fuma maconha desde os 12 anos. A primeira vez que experimentou crack, numa roda de amigos, estava com 18. Um amigo estava com uma lata (usada para fumar crack), ofereceu e eu aceitei, conta. Foi bom, eu gostei, revela.
Segundo o rapaz, ao experimentar o crack, deixou a maconha de lado. Troquei por uma droga mais forte, observa. No início, o consumo de crack acontecia somente aos finais de semanas, depois foi se intensificando. O papelote, ao preço de R$ 5,00 era adquirido com facilidade, afirma. É como comprar pão na padaria, compara.
A.P.F. conta que chegou a consumir drogas até mesmo durante o horário de trabalho. Sempre fiz escondido, nunca me chamaram a atenção por causa disso, afirma. Atualmente, ele está desempregado e revela que gastou parte do dinheiro da rescisão de contrato com drogas - mais de R$ 700,00 em menos de duas semanas. A gente usa o primeiro papelote e não quer mais parar. Enquanto tem dinheiro, vai consumindo, afirma.
À procura de crack, o rapaz foi várias vezes a favelas, passou por uma batida policial e foi roubado pelos próprios traficantes. Eles encostaram o revólver em mim, pegaram o meu dinheiro e falaram para eu ir embora, relata.
Alto e muito magro, A.P.F. conta que emagreceu cerca de 20 quilos por causa da droga - a droga substitui a comida, diz - e perdeu muitos amigos. Eles se afastaram, ninguém gosta de ficar perto de viciados, constata.
A gota dágua, afirma A.P.F., para decidir parar com o vício, foi há alguns dias, quando estava sem dinheiro para comprar mais drogas. Vi a bolsa da minha mãe na sala e roubei R$ 15,00, conta. À noite, quando voltou para casa, encontrou a mãe chorando. Não aguentei, comecei a chorar também e decidi procurar ajuda, relata.
A.P.F. afirma estar disposto a se internar em uma clínica para recuperação de drogados, mas diz não ter dinheiro. Não sei quanto tempo tenho que ficar internado, mas tenho boa vontade e quero largar as drogas. E não me importo se a internação for fora de Londrina, conta. O rapaz informa que está há quatro dias sem consumir crack, mas confessa que se tivesse dinheiro, gastaria com drogas.


