Curitiba - Muita gente deve se lembrar da história do menino canadense que, em 1999, então com 6 anos, fez uma campanha para arrecadar dinheiro para construção de um poço de água em um vilarejo da Uganda, na África. Na época, reportagens de televisão e jornais de vários países mostraram a iniciativa do garoto Ryan Hreljac, morador da cidade de Kemptville (Ontário).
Mas o que nem todos sabem é que hoje, aos 24 anos, ele continua engajado na causa de viabilizar água potável para pessoas carentes, principalmente na África e no Haiti. Só que agora por meio da organização Ryan’s Well Foundation, criada em 2001. Hreljac esteve recentemente em Curitiba como um dos palestrantes do 8º Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação (CBUC), promovido pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.
A história de Hreljac é bastante inspiradora e começou na escola, quando a professora disse aos alunos que na África havia crianças que não tinham acesso fácil a água e que precisavam andar aproximadamente cinco quilômetros até a fonte mais próxima. "Eu só precisava dar dez passos para pegar água limpa", contou. Motivadíssimo, em quatro meses ele arrecadou US$ 70 com os familiares, quantia que o menino acreditou ser suficiente para abrir o poço - mas na verdade, o equivalente a R$ 280 só dava para comprar uma bomba manual. "Setenta dólares era muito dinheiro porque eu tinha só 6 anos", brincou. Mas ele não desanimou quando descobriu que para construir o poço tinha que juntar US$ 2 mil. O garoto envolveu a comunidade, vizinhos, amigos, parentes e um ano depois conseguiu a quantia necessária. Logo depois, com ajuda novamente dos vizinhos, o canadense conseguiu passagens aéreas para viajar com os pais a Uganda e conhecer a comunidade beneficiada com aquele primeiro poço. Ele lembrou que a viagem foi uma experiência incrível, pois pôde ver como o acesso à água limpa fez diferença no vilarejo.
Nesses 15 anos desde a sua fundação, a Ryan’s Well Foundation contribuiu na construção de 880 projetos relacionados à água e 1.120 latrinas, proporcionando água potável e melhorando o saneamento para mais de 800 mil pessoas de 16 países. Os locais são escolhidos pensando no grau de envolvimento da comunidade, essencial para para que o projeto que visa melhorar a qualidade de vida caminhe com a força dos próprios beneficiados. A organização vive de doações, sendo 90% delas de cidadãos comuns, inclusive alguns brasileiros. O restante das doações vem de empresas.
O jovem que se formou Desenvolvimento Internacional e Ciências Políticas pela Universidade de King’s College, em Halifax (Canadá), lembra que aos 6 anos acreditava que um poço resolveria o problema da água no mundo. "O fato de não entender a dimensão do problema fez com que eu agisse", recordou. Na opinião dele, é muito fácil para as pessoas permanecerem na zona de conforto e ficarem ignorantes aos problemas do mundo. "É preciso fazer alguma coisa fora da sua zona de conforto, mesmo que seja uma coisa pequena", disse.
O trabalho do jovem canadense foi reconhecido por muitos governos. Entre as premiações e honrarias, Ryan Hreljac recebeu a "Ordem de Ontário", sendo o mais jovem a recebê-la, o "Prêmio Duque de Edimburgo – Gold Award" e o "Prêmio Humanitário Nelson Mandela Planeta África Awards". "Eu vi que pela água você pode fazer tanta coisa", comentou, ressaltando que há outras causas igualmente importantes. "Você escolhe uma causa e dá um pequeno passo. No final do dia, você é só uma pessoa. Mas é uma pessoa que pode fazer a diferença."

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