Jovem de 19 anos luta contra as drogas
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terça-feira, 24 de janeiro de 2006
Luciano Augusto<br>Reportagem Local 
Para definir o que representam os ''mocós'' locais de aglomeração de moradores de ruas é preciso entender antes que eles são um dos sintomas da doença social que atinge sobretudo os grandes centros urbanos. Enfermidade surgida da desigualdade e que empurra para a rua migrantes em busca de um emprego que nem sempre existe; que retira de casa os meninos e meninas filhos da miséria e os entrega para a realidade dos pequenos crimes e vícios; que desestrutura as famílias e faz com que multidões perambulem pelas ruas das cidades sem qualquer perspectiva.
Exemplos de vítimas são comuns. Negro, pobre, com problemas familiares desde a infância, sem estudos e uma profissão definida, o jovem José (nome fictício), 19 anos, aprendeu praticamente tudo que sabe nos mais de 10 anos que ''morou'' na rua. Mocós ele diz que já passou por todos em Londrina até que decidiu ir morar na casa da mãe.
Sem pensar muito, dispara que, para se viver na rua e conviver com outros iguais, é preciso dominar a lei da selva, onde o mais forte quase sempre vence. Quase porque também a esperteza é arma fundamental para os que não têm morada fixa. ''No começo é difícil porque a gente tem que ficar na cola dos maiores e não pode dar nenhum vacilo. Depois vai ficando mais fácil porque a gente aprende a roubar sozinho, arrumar comida sozinho para não passar fome, dormir na rua e não passar frio.''
Franco, ele confirma que as drogas são companheiras fiéis para quem é da rua. ''Droga e rua é parceria. É igual uma perna que precisa da outra para correr. Uma perna sozinha só manca e não leva a gente para frente.'' Ele, por exemplo, conta que aos 8 anos de idade deixou a casa da segunda família de criação e iniciou suas viagens pelas ruas e entorpecentes: passou do solvente para cola, da cola para maconha, da maconha para cocaína, do pó para o crack... ''Até pico na veia já dei.'' Para bancar o vício, praticava pequenos crimes: furto num dia, noutro um roubo. Começava também as internações, apreeensões e problemas com os aparelhos policiais do Estado. Amigos de rua, José diz que já perdeu muitos.
Nestas condições, continua o rapaz, os mocós são a alternativa para quem precisa de abrigo para fugir dos riscos de permanecer ao relento. As casas abandonadas têm o ''conforto e a segurança'' que precisam para usar drogas, repartir produtos de crimes, descansar, namorar.
José assume que já culpou a mãe, os irmãos, o mundo, pelo que passou nas ruas. ''Hoje acho que ninguém teve culpa. Nem minha mãe, coitada, nem eu. Foi assim.''
Há um mês, José frequenta o Centro de Apoio Psicossocial - Álcool e Drogas (Caps-AD) e junto com outros moradores de rua participa de oficinas, pratica esporte, faz refeições reforçadas e tem com quem dividir os problemas. Se está mais feliz? ''Feliz assim, cem por cento, não estou ainda porque não consegui realizar meus objetivos que é uma casa para morar, uma família e viver em paz.'' Enquanto busca a felicidade, o rapaz que sonha em ser boxeador confessa que não sabe se sua história como morador de rua acabou ou terá próximos capítulos.
No Caps-AD, segundo o coordenador Sérgio Ricardo Belon Rocha Velho, são assistidos 15 moradores de rua, entre adolescentes e adultos. ''A maioria é adulta e com família desestruturada. Muitos já estão adaptados nas ruas e aí temos mais dificuldades'', comenta.
Há casos como o de um rapaz de 29 anos que praticamente nasceu nas ruas, haja visto que sua mãe também era moradora de rua. Honesto, Rocha Velho observa que os resultados não são medidos estatisticamente mas pelos casos em que a pessoa consegue mudar de vida. A filosofia do Caps-AD, ressalta o coordenador, é trabalhar com a acolhida. ''Primeiro criamos um vínculo de confiança para depois estabelecermos uma proposta de tratamento.'' O Centro tem parcerias com órgãos municipais, ONGs, clínicas, hospitais, entre outros.


