José supera dificuldades e vence como fisioterapeuta
Nascido em 1970 em Paranavaí, no Noroeste do Estado, filho do casal de lavradores José Pereira de Castro e Didima Giuliangeli de Castro, logo cedo o menino José Giuliangeli de Castro descobriu que a vida não seria exatamente um mar de rosas.
Em pleno período do Milagre Econômico fabricado pela ditadura militar, com apenas um ano de idade ele foi obrigado a mudar-se com a família, vítima do êxodo rural, para Rolândia (25 km a oeste de Londrina).
Hoje, passados 27 anos, ele ainda reside naquela cidade, onde trabalha e é respeitado como fisioterapeuta do Posto de Saúde Municipal da Vila Oliveira. O segundo emprego dele é no Hospital Universitário (HU) de Londrina, como operador de câmera escura, onde são revelados os exames de Raios X.
Casado com a psicóloga Carolina Espindola e pai dedicado de dois filhos gêmeos - Pedro e Matheus -, ele teria tudo para levar uma vida pacata de funcionário público do interior.
Mas a vida lhe pregou várias peças, quase sempre não bem humoradas. Ele nunca, porém, se abateu com os dramas pessoais e familiares. E em cada final infeliz José de Castro reuniu energias para um novo recomeço, reorganizou a experiência necessária para as futuras conquistas.
Não gostaria de ser um exemplo. Achava que as pessoas não deveriam necessitar de exemplos para crescer e viver. Mas como nossa formação é baseada em exemplos, como a sociedade vive em torno de exemplos, hoje não me preocupo mais em servir como um bom exemplo de luta, de perseverança e de possibilidade de vitória, comenta.
Semi-analfabetos, os pais dele se submeteram a muitos tipos de trabalho não qualificados ao chegarem em Rolândia no início da década de 70. Além de cuidar da casa e dos dois filhos, Didima Giuliangeli conseguiu especializar-se e trabalhar como atendente de enfermagem.
José Pereira não teve tanta sorte. Seu primeiro e único emprego foi como ajudante de pedreiro numa empresa de construção civil. Com pouco mais de um ano de profissão, ele caiu do andaime de um prédio em construção e ficou paraplégico.
Minha família era pobre ao extremo; muito simples e humilde. Cresci estudando em escola pública e vendendo sorvetes e verduras, de casa em casa, para ajudar com algum dinheiro a minha mãe a cuidar da família. Mas como nem tudo são tristezas na vida, ganhei uma bolsa para estudar no Colégio Santo Antonio, da 5ª à 8ª série, conta José de Castro.
Foi nesta época que aprendi a conviver melhor com as adversidades. Eu era pobre, morava na periferia, mas estudava numa escola particular frequentada basicamente por filhos de ricos. Quando não estava na escola, desviava do centro da cidade para meus colegas de sala não me verem vendendo sorvetes ou verduras. Eu tinha vergonha; acho que qualquer criança teria. Mas aquela situação traumatizante me ensinou a dar valor ao trabalho, ao estudo, e à necessidade de lutar, não desistir nunca de meus objetivos.
José Giuliangeli de Castro lembra que era vidrado em aviões-caças, aqueles das propagandas da Força Aérea Brasileira (FAB) nas décadas de 70/80, quando o Brasil foi governado pelos generais de cinco estrelas. Eu cresci com o sonho de ser aviador, piloto daqueles aviões maravilhosos. Mas, durante os anos de colégio, já de novo na rede pública, começei a sentir também a vontade de trabalhar na área da saúde pública, talvez influenciado pela minha mãe, ressalta.
Ele tentou o primeiro vestibular para medicina na Universidade Estadual de Londrina (UEL) em 1988 e não foi aprovado. Enquanto fazia cursinho pré-vestibular à noite e trabalhava de vendedor autônomo de dia, passou no exame da FAB e foi prestar serviço em Curitiba. Foi dispensado pela FAB na sequência, logo após ter passado no vestibular para cursar fisioterapia na UEL, onde começou a estudar em 1989.
Tudo transcorreu normalmente até junho de 93. Como o curso é de período integral, José de Castro estudava de dia e trabalhava à noite, de garçom em bares e festas, e de porteiro na Santa Casa.
No dia 20 daquele mês, o velho e mal conservado Chevette que dirigia - única propriedade da família - teve um problema de bateria no centro de Londrina. Ele o empurrou na descida, para tentar fazê-lo pegar no tranco. Em um cruzamento preferencial, para não atropelar um ciclista, ele subiu na calçada e bateu o carro em uma árvore.
Como não estava usando cinto de segurança. José de Castro foi jogado com violência contra o pára-brisa e teve seus dois olhos perfurados de maneira irrecuperável.
Daí para frente, foi como nascer de novo; e cego. Passei por cinco cirurgias em Londrina e São Paulo, mas sem sucesso. Tive infecções intraocular e úlcera de córnea, além de fibrose na retina. Passado o trauma, decidi reaprender a viver. Fui ao Instituto dos Cegos, que me deu muita força. Readaptei-me às atividades mais comuns do dia-a-dia. Aprendi a andar de bengala e a ler pelo método braile, conta José de Castro, lembrando que em 1994 voltou a estudar na UEL.
Apesar das enormes dificuldades, ele não desistiu de seus objetivos. Tudo isto foi muito triste, mas tomei esta nova situação como um estímulo e um desafio a ser superado. E recebi muita força da minha mãe e minha irmã, que sempre disseram: vai em frente, não desista nunca, afirma. Ele se formou no final de 1995, sendo o orador geral dos formandos da UEL.
De lá para cá, ele desempenha a sua profissão sempre buscando o aperfeiçoamento e a prestação de auxílio aos mais necessitados. De Rolândia para Londrina, ele vem e volta diariamente sozinho e de ônibus. Recentemente, foi aprovado no concurso para trabalhar no Pronto Atendimento Infantil (PAI) de Londrina e aguarda chamada para contratação. Nesta semana, ele prestou exame para o curso de especialização em Saúde Coletiva e Epidemiologia da UEL, e se diz ansioso pela aprovação.
Estou muito feliz no meu trabalho como fisioterapeuta. É lógico que tenho limitações impostas pela falta de visão, mas procuro superá-las. Quando isto não é possível, encaminho o paciente a outros profissionais. O importante é manter sempre a honestidade e a ética.
Arquivo FolhaPERFILJosoé de CarvalhoExemplo
de lutaJosé Giuliangeli de Castro hoje, depois de vencer vários obstáculos que surgiram em sua vida, inclusive o acidente que resultou na perda da visão, atende uma paciente em um dos dois locais onde trabalha: Não gostaria de ser um exemplo. Mas como nossa formação é baseada em exemplos, como a sociedade vive em torno de exemplos, hoje não me preocupo mais em servir como um bom exemplo de luta, de perseverança e de possibilidade de vitóriaOsmani Costa





