Esperança, angústia e desespero. Essa mistura de sentimentos acompanhou o jornalista José de Oliveira Santos, o Jota, durante os dois anos em que ficou em uma fila aguardando transplante de fígado. No país cerca de 60 mil pacientes esperam por um órgão, mas metade deve morrer na fila, segundo previsão da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO). ''Medo de morrer não tive, mas dava desespero. A espera é muito angustiante, até porque você não tem certeza de que o órgão doado será compatível'', lembra Jota, que está contando todos os momentos que passou no livro ''Transplante - Esperança de Renascer'', a ser lançado no dia 8 de outubro, na Biblioteca Pública. O livro relata também experiências de outros pacientes que passaram pelo problema, aborda o medo que as pessoas têm de doar órgãos, incentiva as doações e mostra os perigos que o álcool pode causar na vida do indivíduo.
Nem mesmo a doeça tirou o ânimo e a vontade de escrever do jornalista que aproveitava os momentos em que estava no hospital para fazer anotações e entrevistar pacientes e médicos. Escrito a quatro mãos, o livro tem como co-autora Adélia Carvalho Santos, mulher e companheira de Jota há 42 anos, que compartilhou com ele toda a angústia. ''Ela me ajudou, anotando as vicissitudes. Não é fácil cuidar de uma pessoa doente'', diz Jota.
A espera pelo órgão começou assim que os médicos diagnosticaram a cirrose. ''Dizem que cirrose é coisa de alcoólatra, mas só 25% dos alcoólatras têm cirrose. Sou um deles, embora a maior causadora da doença seja a hepatite C'', explica o jornalista, que parou de ingerir bebida alcoólica assim que foi informado pelos médicos sobre a doença.
A partir daí teve início uma verdadeira via-sacra pelos consultórios médicos e Jota passou a integrar a fila dos que esperam por um órgão. ''Foram dois anos de espera. Dava esperança e desespero, principalmente quando havia a perspectiva de conseguir um doador numa determinada data e isso não acontecia.'' Num certo dia, quando estava participando de um evento, Jota recebeu um telefonema do Hospital de Clínicas de Curitiba informando-o que sua vez havia chegado. ''Isso foi numa quinta-feira. No sábado viajei para Curitiba para me preparar para a internação. Isso só ocorreria dentro de uma semana, mas tive uma encefalopatia (confusão mental que ocorre por excesso de proteína e sal nos pacientes com cirrose) e já fiquei direto no hospital'', recorda, acrescentando que esses dias de espera foram terríveis. ''Quando a médica se aproximou e disse: vamos fazer o transplante, respondi: só se for agora''.
A cirurgia, que durou sete horas, começou na noite do dia 30 de dezembro de 2002. ''Foi um presente de ano novo'', conta Jota, que tem levado uma vida normal, embora necessite de acompanhamento médico a cada três meses para uma revisão no Hospital de Clínicas de Curitiba referência em transplante de fígado. Assim que lançar o livro, ele já tem planos para um outro de contos.
A intenção de Jota com o livro sobre transplantes é passar uma mensagem em favor da doação de órgãos. Ele percebeu em uma série de conversas e entrevistas que as pessoas têm medo de doar órgãos. Há também aquelas que alegam questões religiosas. ''Acreditam que não vão chegar ao céu sem os órgãos'', conta Jota, informando que outra grande parte de familiares tem esperança de que a pessoa que já está com morte encefálica ainda possa sobreviver, o que é impossível.
''Sempre tive esperança de que ele conseguiria'', interrompe Adélia, contando que a parte mais difícil do tratamento foi a dieta alimentar. ''Não podia comer quase nada. Um bife para ele não podia pesar mais do que 30 gramas'', lembra Adélia. A dieta rigorosa resultou em um emagrecimento de 30 quilos.
Além de detalhar no livro como é entrar numa fila para obter o transplante, o jornalista faz um alerta também sobre os riscos do álcool no organismo e diz porque as pessoas devem ser doadoras. E por que as pessoas devem ser doadoras? ''Porque é vida'', resume Jota, que trabalhou durante 37 anos na Folha de Londrina.

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