Num sopapo só com o coelho Sansão, a Mônica - quem diria! - desbancou o Pato Donald e o Mickey, empurrando as revistinhas da Disney para o canto das prateleiras das bancas de jornal.
Lá no fundo das bancas, eles assistiram de camarote à derrocada dos patos falantes americanos.
Hoje, eles são os personagens principais da reportagem, que vai comemorar o Dia do Jornaleiro contando histórias que não estão no jornal ou na revista, mas que fazem parte do dia-a-dia de quem se acostumou a ler as notícias, antes de abrir a banca para os leitores.
A primeira página desta história será aberta por Edson Taramelli, 57 anos, filho de Pedro Taramelli, que por mais de 40 anos esteve à frente da Banca Correio, na Avenida Rio de Janeiro, em frente da Agência Centro dos Correios. Ainda menino, ele pediu ao pai, que era taxista, para comprar uma banca onde ele e a mãe pudessem trabalhar.
Seo Pedro tinha dois carros de praça, mas o negócio na banca deu tão certo, que ele se tornou jornaleiro.
No último quadrinho dessa história, ainda hoje vemos a dona Rosalina, mãe de Edson, que aos 83 anos não passa um dia sem visitar a banca.
O filho do seo Pedro, que trocou a profissão de agrônomo pela de jornaleiro, lembra que a terceira geração é representada pelo neto do pioneiro, Pedro Fábio, 21 anos, que enquanto não termina a faculdade de Comércio Exterior, dá uma força na banca da família.
A saga dos Taramelli se confunde com a venda de revistas, como Seleções Reader's Digest e o Almanaque do Pensamento, numa época em que os gibis faziam mais sucesso entre a garotada.
Em Londrina existem 67 bancas de revistas e jornais. A profissão de jornaleiro, a exemplo de outras profissões, se aprendia ainda menino e na ''escola'' de gente experiente no ramo.
Aos 42 anos, Elias Patrício lembra que começou a trabalhar aos 14 anos na banca de Pedro Taramelli. Depois de 23 anos e com a morte do fundador, decidiu continuar no ramo.''A gente pensa em mudar de atividade, mas no andar da carruagem fica difícil. Teria que começar tudo de novo'', afirma Patrício que, ao lado do irmão Daniel, hoje é dono da Banca Santista, na esquina das ruas Souza Naves e Goiás.
Se a briga da Mônica com o Pato Donald saísse dos quadrinhos para ganhar as revistas de celebridades, somente seria campeã de vendas se o forrobodó fosse estampado na capa.
''Quando sai na capa é interessante e aí vende mais'', confirma Patrício, que registra um aumento de 10% nas vendas de revistas e jornais com os últimos escândalos políticos.
Foi assim com a morte de Elvis Presley (1977) e a primeira visita de João Paulo II ao Brasil (1980), fenômeno de vendagens que superou a corrida às bancas atrás de notícias sobre o maior atentado terrorista dos últimos tempos, o 11 de Setembro.''A queda das torres em Nova York teve influência nas vendas, mas não tão grande. A mídia já estava ao vivo, transmitindo as informações'', constata Patrício.
Por incrível que pareça, numa conversa ao pé da banca, não são os assuntos da política que interessam mais aos leitores, que têm preferência maior por revistas de fofocas.
Numa banca é possível encontrar desde publicações como Sabrina às revistas especializadas em cultura, música, artesanato e assuntos tão variados como granja, ao lado de clássicos de Bukowski, Tolstoi, entre outros. Tudo isso enquanto se saboreia um cafezinho ou um sorvete.
Uma caminhada todos os dias até a Banca Flamengo, no Mercado Municipal Shangri-lá, é uma oportunidade para bater um papo com o jornaleiro João Medeiros - o segundo proprietário da banca, que tem mais de 57 anos.
O jornaleiro diz que a sua história é um papel, já que começou a trabalhar com revistas em 1967. Medeiros tem 64 anos e muita saúde para acompanhar o mau desempenho do Mengão no Campeonato Brasileiro.
Dramas do futebol ou da humanidade sempre dividiram espaço com as ilusões vendidas nas bancas de jornais em fotonovelas, que já não existem mais, e outras publicações como O Cruzeiro, Manchete e Fatos e Fotos - que também não tiveram fôlego para entrar num mercado editoral que disputa com a internet.
São algumas reminiscências de qualquer frequentador de banca. Para quem já foi menino, é fácil lembrar do tempo em que a molecada ia ao jornaleiro da esquina comprar figurinha da Copa e depois jogar bafo com a intenção de rapelar tudo.

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