Jornal consolidou ponte do Mercosul
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quinta-feira, 19 de novembro de 1998
Valmir Denardin 
Nas mais de 15 viagens que fez a Brasília e Buenos Aires, entre o final da década de 70 e início da de 80, para tentar convencer os governos de Brasil e Argentina da necessidade de construção de uma ponte sobre o Rio Iguaçu ligando os dois países, o empresário iguaçuense Sérgio Lobato Machado levava na bagagem mais do que algumas roupas e muitos argumentos. A cada embarque, Lobato - então presidente da comissão binacional para a construção da nova ponte - acomodava na mala uma média de 50 exemplares da Folha com reportagens que mostravam a importância da obra.
Mais do que qualquer argumento que eu pudesse apresentar, as matérias da Folha eram incontestáveis e mostravam que a travessia do Rio Iguaçu por balsa era demorada, cara e perigosa, recorda o empresário, hoje com 58 anos. A iniciativa deu resultado. Em 1980, Lobato foi a terceira pessoa a assinar, em Buenos Aires, o convênio binacional para a construção da ponte ligando Foz do Iguaçu a Puerto Iguazú - depois do presidente argentino Jorge Rafael Videla, e de seu colega brasileiro, João Figueiredo.
Cinco anos depois, em 29 de novembro de 85, Lobato e o fundador da Folha, João Milanez, assistiam à inauguração da obra, pelos presidentes José Sarney e Raúl Alfonsin. Inicialmente denominada Ponte da Fraternidade, a ligação foi rebatizada de Ponte Internacional Tancredo Neves, em homenagem ao presidente brasileiro que morrera em 21 de abril daquele ano, sem assumir o cargo.
Com 489 metros de comprimento e 16,5 metros de largura, hoje a Ponte Tancredo Neves é uma das principais vias de escoamento de produtos do Mercosul. Por ela passam, diariamente, entre 300 e 400 caminhões, transportando alimentos produzidos principalmente na Argentina, no Chile e no Uruguai e levando, na volta, produtos industrializados brasileiros.
Se a ponte não existisse, esses caminhões estariam entrando no Brasil pelo Rio Grande do Sul, deixando de gerar riquezas e movimentar a economia do Paraná, acredita Lobato. A Ponte Tancredo Neves foi a grande arrancada para o Mercosul.
Na sua opinião, além de fortalecer a economia dos dois países e de todo o bloco econômico que surgiria depois, a campanha pela construção da ponte, apoiada pela Folha, teve uma função diplomática. Serviu para aproximar os governos de Brasil e Argentina, que estavam com relações estremecidas devido à construção da Hidrelétrica de Itaipu - uma parceria entre Brasil e Paraguai. Contrária à obra, a Argentina acabou cedendo.
Levamos uma mensagem de que aqui, na fronteira, Brasil e Argentina eram nações amigas e pretendiam ser sócios numa obra que beneficiaria os dois países, diz Lobato, que atualmente lidera a campanha para a construção de uma segunda ponte ligando Brasil e Paraguai - uma alternativa à congestionada Ponte da Amizade.
Apesar de ter sido a mais marcante, a construção da ponte Brasil-Argentina não foi a única campanha com a participação da Folha na Tríplice Fronteira. O jornal noticiou a luta para a instalação do Aeroporto Internacional, inaugurado em 1972 e ampliado entre 1986 e 1989. Com uma pista de 2,2 mil metros de comprimento por 45 metros de largura, o aeroporto é um dos maiores do País e pode operar com qualquer aparelho atualmente em circulação no mundo.
A Folha também acompanhou a mobilização regional para a construção do Centro de Convenções de Foz do Iguaçu. Erguido entre 1986 e 1990 por um pool formado pelos governos federal, estadual e municipal, além da iniciativa privada, o empreendimento, com 20 mil metros quadrados de área construída, consolidou a cidade como um dos principais centros de realização de eventos do País. Hoje, o jornal mostra uma nova luta, cujo objetivo é ampliar o Centro de Convenções para 30 mil metros quadrados e equipá-lo com a mais alta tecnologia de comunicações e serviços.
Mas a obra da Tríplice Fronteira mais noticiada ao longo dos 50 anos da Folha recebeu um título que resume sua grandiosidade: a obra do século. Desde a assinatura do tratado binacional, em 1973, até a inuaguração oficial, em 1991, a Folha acompanhou com destaque a história da Hidrelétrica de Itaipu, a maior do mundo, construída no Rio Paraná por brasileiros e paraguaios. Em centenas de páginas, o jornal retratou a obra que mais contribuiu para modificar o perfil de uma região no Estado.
Basta dizer que, em 1970, cinco anos antes do início da construção da hidrelétrica, Foz do Iguaçu tinha 34 mil habitantes. Dez anos depois, no auge das obras, a população do município havia aumentado para 136 mil pessoas. Entre 1979 e 81, Itaipu chegou a empregar 40 mil trabalhadores simultaneamente. A saga dessas famílias - a maioria absoluta migrante de todas as regiões de Brasil e Paraguai - foi retratada nas páginas da Folha.
A grandiosidade da obra e sua repercussão mundial impressionava até os jornalistas que acompanhavam o assunto. Foi a reportagem mais importante que fiz na vida, relembra Maria Auxiliadora Alves dos Santos, de 45 anos - primeira repórter da Sucursal da Folha em Foz do Iguaçu -, referindo-se à cobertura da inauguração das duas primeiras turbinas do lado brasileiro da usina, em 16 de janeiro de 1987.
Havia dezenas de jornalistas, de todas as partes do mundo, e eu estava pautada para entrevistar o presidente Sarney ainda no aeroporto, conta Maria Auxiliadora, paulistana que havia chegado à cidade poucos meses antes. A persistente repórter conseguiu a entrevista, publicada com destaque na edição do dia seguinte.
Iniciada naquele dia, a relação de Maria Auxiliadora com Itaipu dura até hoje. Meses depois, ela foi convidada para integrar a equipe de comunicação social da binacional, onde atualmente exerce o cargo de gerente da Divisão de Imprensa.


