Jornais abrem espaço para os leitores
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de novembro de 1997
Mari Tortato 
Curitiba
Albari RosaRetornoMerval Pereira, de O Globo: pesquisa diária para medir o grau de satisfação dos leitores com o jornalTodos os dias o jornal O Globo, do Rio de Janeiro, faz uma pesquisa com 200 leitores para aferir qual o grau de aceitação da edição. Por enquanto, o painel do leitor de O Globo é restrito aos assinantes, mas o diretor de Redação, Merval Pereira, antecipa que há projeto para estender a consulta para os compradores de bancas. Desde 92, O Estado de São Paulo se empenha num rastreamento do volume de erros de informação e de português no material editorial, o que fez despencar o índice de incorreções, de lá para cá.
Esses são apenas dois dos exemplos do repensar do jornalismo brasileiro em discussão diária nos veículos impressos. Os jornalistas de comando de redações que participaram ontem do Seminário Qualidade Editorial, em Curitiba, já não têm dúvidas de que os jornais mantêm seu espaço no mercado, em que pese a velocidade da mídia eletrônica. Mas a reciclagem vira fator permanente. E a consulta ao leitor é uma das peças chaves desse processo. Sua vontade abre espaço, mas não a ponto de mandar na linha editorial.
O diretor de Redação de O Estado de São Paulo, Aluízio Maranhão, garante que uma das primeiras providências de um jornal em processo de reciclagem é a quebra do que chama de A cultura da Torre de Marfim. Ele prega o exercício de humildade entre os editores (o topo da linha de produção de uma edição). Trânsito com os departamentos Comercial e de Marketing e compreensão dos prazos industriais do jornal são relacionados por ele como exigência moderna, guardadas as limitações e espaços éticos, ressalva.
O professor de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina e autor dos livros Ideologia e Técnica da Notícia e Estrutura da Notícia, Nilson Lage, é um crítico agudo do conteúdo editorial dos veículos. Os editores são as pessoas mais arrogantes que se tem notícia, instiga ele, para defender que nem sempre o que é definido como matéria principal vale como notícia. Mas o que ele mais questiona na leitura diária dos jornais são as matérias baseadas em estatísticas repassadas, seja por autoridades ou por organizações não governamentais. Todas são equivocadas e não passam de extrapolações da realidade ou invenções mesmo, garante. A realidade precisa ser levada a sério, prega ele, que também condena a banalização da denúncia.
O seminário Qualidade Editorial, que abriu na noite de quarta-feira, teve apoio da Folha e de outros dois jornais paranaenses. A realização foi da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) e Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). A discussão foi encerrada no final da tarde, com palestra do presidente da Associação Mundial de Jornais (Wan), Jayme Sirotsky, sobre Jornalismo e Ética no Mundo.


