Jogo é um jeito de se preparar para a vida
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de setembro de 1998
Estelio Feldman 
A idéia de ensinar o jogo de xadrez (ou qualquer outro tipo de jogo) nas escolas simplesmente seria descartada com horror até passado muito recente. Com efeito, por séculos, associava-se o ensino à tortura. Brincadeiras, inovações, modos diferentes de abordar assuntos como os do ensino eram considerados até absurdos. Quanto mais duro o ensino (aí incluídos os castigos aos alunos) mais eficiente, é o que se pensava no passado - não tão remoto.
As coisas foram mudando. Atualmente há conceitos bem mais inteligentes a nortear boa parte da educação sendo que a introdução do jogo do xadrez como matéria de ensino escolar é bem indicativa disto. Trata-se de uma verdadeira evolução nos conceitos, usando-se uma coisa divertida (o jogo) para melhorar o raciocínio dos alunos. Ou seja, basicamente se trata de fazer da educação uma coisa divertida, o que pode e deve ser.
Mas, por que o jogo do xadrez, entre tantos? Possivelmente porque não é um jogo de sorte (ou azar). Não depende senão da inteligência e capacidade do jogador. Dá ao participante as mesmas armas (as peças) com um objetivo claro: ganhar do rival, pelo xeque-mate ao rei. Tudo depende, assim, do jogador, sem nenhuma interferência da sorte.
Um jogo não muito complicado para aprender. É verdade que são peças diferentes, cada uma com um tipo de movimento. Mas aprender isto é fácil. O que vem depois é que é complexo: fazer dos movimentos um jogo, antecipar os lances do rival, prever as possibilidades, produzir condições melhores no desenvolvimento. É isto o que aprimora o raciocínio, com todas as suas consequências.
Bem observada a questão, o xadrez pode ser comparado à vida com cada jogador fazendo seus lances, tentando antecipar o dos outros, visando ganhar (não matar o rei adversário, mas sobreviver). E se a escola deve ser, realmente, preparatória para a vida, o xadrez serve à finalidade educativa de modo pleno. É um jeito divertido de aprender, o que, no fim, pode tornar o aprendizado menos árido para o estudante em geral.
- O autor é redator da Folha, joga xadrez desde os 8 anos (há 52 anos) e foi tricampeão universitário de xadrez por equipe, em Londrina


