Jogo do bicho corre solto no Estado
Carmem Murara
De Curitiba
A certeza de que não há repressão ou mesmo fiscalização por parte da Segurança Pública, além da aceitação e até simpatia de grande parte da população fizeram com que o jogo do bicho se tornasse uma prática comum e visível à luz do dia, em Curitiba e na grande parte dos municípios do Estado. A Folha recebeu denúncia anônima de um morador do bairro Alto da Glória, informando que, próximo a sua casa, funcionaria às claras uma fortaleza do jogo do bicho. A informação fez com que a Delegacia de Ordem Social desse uma batida no local, na semana passada, e não encontrasse nada. Moradores e comerciantes entrevistados garantiram que ali já funcionou uma central do jogo, mas nenhum se mostrou preocupado ou com medo dos contraventores vizinhos.
Ao entrar no prédio, que fica na rua Alberto Bolliger, os policiais encontraram oficialmente a empresa T.J Motoboy, com toda a estrutura necessária e com alvará de funcionamento da prefeitura. A documentação foi recolhida e não foi encontrado nada de anormal, disse o delegado de Ordem Social, Olavo Romanus. Não havia qualquer sinal ou indício de que ali fosse uma fortaleza do jogo do bicho. Sequer encontramos um volante do jogo, garantiu o delegado.
No dia seguinte à batida policial, a Folha telefonou para o endereço e a telefonista atendeu à chamada dizendo: Global Loterias, bom dia. Ao perceber que estava falando com uma jornalista ela retificou a informação e disse que ali não era nenhum loteria, mas sim a empresa TJ Motoboys.
A TJ Motoboys funciona há vários anos no endereço e nunca chamou atenção das autoridades policiais. A Folha conversou ontem com um dos banqueiros do jogo do bicho, cujo nome será mantido em sigilo, e ele negou que o local no Alto da Glória seja utilizado para fazer rateio dos sorteios e para fazer o pagamento. Seria muita ingenuidade ficarmos num único endereço. Nós mudamos a banca do jogo a cada dois ou três dias, pois não dá para dar bandeira, afirmou. Eles denominam este esquema de pula pula.
Há 43 anos na contravenção, o bicheiro de 61 anos diz que o jogo do bicho corre solto no Estado, porque não está atrelado a qualquer outro crime, como ocorre hoje no Rio de Janeiro, onde há envolvimento com o narcotráfico e contrabando. Não somos bandidos. O Rio de Janeiro é isolado do resto do Brasil. O jogo do bicho é a coisa mais honesta que há. Honramos nossa palavra, afirmou.
Ele disse que o sucesso e a durabilidade do jogo do bicho no País se deve à seriedade das apostas. Todos os dias em Curitiba há em média 5 mil vencedores, que nunca deixam de receber valores que podem variar de R$ 9 a R$ 100 mil. Jamais um bicheiro deixa de pagar. Se não pagar o prêmio está morto, diz, no sentido figurado. Ele garante que não há como descumprir o acordo, apesar de ele ser apenas verbal.
O banqueiro do jogo do bicho diz que hoje toda a estrutura mantém cerca de 6 mil pessoas empregadas, desde entregadores das apostas até os donos de casas lotéricas e os funcionários que trabalham no atendimento por telefone. Hoje, há em Curitiba 189 casas de loterias e, segundo ele, todas fazem o jogo do bicho apesar de ser proibido pela lei.Atividade é quase livre e não recebe repressão da polícia paranaense, qu e não vê ligação dos bicheiros do Paraná com o crime organizado
José SuassunaSERÁ QUE É?Casa no bairro Alto da Glória, que os vizinhos afirmam tratar-se de uma fortaleza do jogo, mas que a polícia visitou e nada encontrouArquivo FolhaOs apontadores e apostadores fazem o jogo livremente no Estado, sem a interferência da polícia





