Jogo de cintura para viver
Londrina Quando se conheceram, Valquíria Aparecida Correia Nogueira, de 37 anos, e Fabiane Roque Nogueira Correia, de 36, ainda eram meninas em idade escolar. Naquela época, nem passava pela cabeça das duas que um dia pudessem formar um casal. Reencontraram-se já adultas, ambas com filhos e saindo de casamentos com homens. Juntas há oito anos, elas relatam que a amizade que retomaram se fortaleceu e evoluiu para um sentimento muito maior. Decidiram oficializar a união e, hoje, além de uma vida em comum com suas crianças e adolescentes, carregam o sobrenome uma da outra.
A família acabou se estendendo para o casal e quatro filhos Maísa e Vitória, filhas de Valquíria; e Juan e Gabriel, filhos de Fabiane. Os filhos, quando souberam da união das mães, não se assustaram, conta Fabiane. "Sempre tivemos um vínculo forte com Valquíria, ela já era chamada de tia por eles, então foi algo natural. O mais velho se assustou no início, mas depois de quatro ou cinco meses foi aceitando a situação", conta.
A primeira pergunta da turma ao saber do casamento das mães, recorda Valquíria, já mostrou que as crianças não tinham preconceito com a homossexualidade de ambas. "Elas queriam saber se ia ter festa."
Esta nova configuração familiar levou os filhos de Valquíria e Fabiane a desenvolverem jogo de cintura para enfrentar situações constrangedoras no cotidiano. No início tentavam defender as mães de todas as formas, ainda que isso custasse entrar numa briga. Era comum que elas fossem chamadas na escola. Com o tempo, desenvolveram novas habilidades para lidar com um preconceito que vai além homossexualidade. Fabiane conta que a família segue o candomblé como religião e que isso também já foi um fator de discriminação por parte de outras crianças.
Diante disso, as mães procuram, na medida que podem, estabelecer um diálogo com as instituições que atendem seus filhos. Depois de passar por constrangimentos no dia a dia para provar que realmente são cônjuges uma da outra, elas andam munidas da declaração de união estável que firmaram em cartório.
Membro do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, Fabiane e a esposa também se engajam para trabalhar pela conscientização de jovens contra a homofobia e questões envolvendo gênero e religião. Fazem palestras e participam de encontros em Londrina e em outras cidades do Paraná. "As pessoas precisam respeitar o diferente. Nós vamos até onde a lei nos favorece, desde que não prejudiquemos o direito do outro", afirma Fabiane.
Para elas, o preconceito vem dos adultos, não das crianças. "Elas são continuidade do que aprendem com seus pais", observa Valquíria. Ela e Fabiane pretendem ainda adotar uma criança em breve, de preferência fora do perfil procurado por casais heterossexuais. "Queremos uma criança especial, para que ela seja tão amada e respeitada quanto nossos filhos. Queremos quebrar tabus", assinala Valquíria.(A.L.)





