João, 'sofredor' assumido
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de maio de 2000
Paulo Pegoraro De Cascavel 
João Bassani, 30 anos, é um sofredor. Ele mesmo reconhece: Sou caminhoneiro e corintiano. E explica: Quem não é da boléia e não acompanha futebol pode não saber, mas tentar ganhar a vida dirigindo caminhão e torcer para o Corinthians é sofrer mesmo. Pai de um menino, morador em Corbélia (24 quilômetros ao norte de Cascavel), João é daqueles caminhoneiros que fazem milagre para sobreviver do ofício. Depois de 8 anos transportando grãos, principalmente para Paranaguá, e antecipando-se alguns dias à recente paralisação da categoria, ele mandou substituir a carroceria graneleira de seu Mercedes, ano 79, por uma caçamba, passando a puxar areia e fazendo rolos para melhorar o faturamento. A areia é carregada em Guaíra, das margens do Rio Paraná, em distância muito inferior em relação ao porto marítimo, o que lhe permite permanecer mais tempo com a família.
Pelo frete, ele recebe aproximadamente R$ 350,00, com carga cheia, e sobra cerca de R$ 200,00 por viagem. Além de fazer frete de todo tipo de material possível em caçamba , compra e vende areia. João reconhece que, às vezes, anda pesado, o que é sinônimo de excesso de peso, e diz que de cem motoristas, acho que não há um que não faça o mesmo, porque, senão, não sobra nada no final das contas.
Para o motorista, a situação da categoria é desesperadora, o governo anunciou medidas que não melhoram nada, e, se pudesse recomeçar a vida, não voltaria para a estrada. João comenta que quase todos os caminhoneiros acabam passando por nó cego em tudo quanto é boteco. Explicando: se endividam até para comprar coisas básicas para a família e têm grandes dificuldades para pagar a conta. João Bassani comenta que até as crianças já sabem que ser caminhoneiro é sofrer, tanto que seu próprio filho já disse que, quando crescer, caminhão nem pensar.


