Edna Mendes
De Cornélio Procópio
Visitar lixões à procura de material para compor sua arte, faz parte da rotina do curitibano João Alberto Vasco de Andrade , o ‘‘João do Lixo’’, 52 anos, que há 12 anos mora em Florianópolis (SC). Mas essa prática seria muito pouco diante da proposta do artista plástico.
O que ele pretende mesmo é conscientizar as pessoas sobre a importância do lixo reciclado no dia a dia e criar agentes multiplicadores do seu trabalho em todo o País.
No Paraná, a primeira cidade a conhecer a arte de João do Lixo, como ele faz questão de ser chamado, foi Bandeirantes, no Norte do Estado. A pedido da companhia de Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), responsável também pela coleta de lixo na cidade, o artista ministrou durante a semana um curso de reciclagem e transformação de lixo para 60 professores.
‘‘É inadmissível que nos dias de hoje um professor da rede pública peça para os alunos comprarem materiais caros para as aulas de educação artística, se com lixo reciclado é possível fazer coisas belíssimas e sem agredir o meio ambiente’’, ressalta João do Lixo.
Ensinando os professores a reaproveitar o ‘‘lixo que não é lixo’’ o artista acredita que eles se transformarão em agentes multiplicadores porque irão levar o que aprenderam para a sala de aula. ‘‘As crianças também acabam levando o que aprenderam para casa e se transformam em agentes multiplicadores. O primeiro passo é elas aprenderem a colocar o lixo no lixo e depois reciclar. Este é o meu objetivo’’, explica. Além de professores, o artista também trabalha com crianças carentes e grupos de terceira idade.
João do Lixo conta que começou a se interessar por lixo reciclável depois que se aposentou, ele era funcionário público. ‘‘Comecei a analisar a textura e as formas da grande quantidade de lixo produzido e pensei em uma maneira de reaproveitar isso tudo’’, conta.
As obras de João do Lixo são construídas a partir de materiais simples, como garrafas plásticas, tampinhas, latas de refrigerante, embalagem de café, sacolas plásticas, rótulos, arames, entre outros. Para ele, é perfeitamente possível criar esculturas, painéis, luminárias, brinquedos, fantasias carnavalescas, bonecos, porta-retratos e artigos decorativos usando esses materiais.
O método de trabalho de João do Lixo dispensa o uso de cola e tinta, ou qualquer outro produto químico. ‘‘Prefiro fazer encaixes, o que torna o trabalho mais elaborado’’, observa.
O artista prefere não ampliar sua linha de produção e por isso não faz objetos para vender. Mas, entre os trabalhos que faz também se destacam os tapetes feitos na ruas para as procissões de Corphus Christi e outras festas religiosas. Tudo com material reciclado.
O artista também trabalha com a linha natalina, desenvolvendo guirlandas e árvores. ‘‘Quero continuar criando para ver onde consigo chegar’’. Para se aperfeiçoar, João do Lixo faz constantes pesquisas sobre técnicas e materiais e participa de workshops nos grandes centros, como São Paulo.
A idéia da SAAE de contratar João do Lixo para ensinar professores a reciclar e transformar lixo, teve a preocupação de despertar o interesse da comunidade pela diminuição do volume de detritos recolhidos diariamente em Bandeirantes. Segundo o oficial administrativo da SAAE, Luiz Gomes Lomba, a cidade produz uma quantidade de lixo acima da previsão da empresa.‘‘A nossa intenção é fazer com que a população transforme o lixo em algo útil. Assim ela vai estar se conscientizando e agredindo menos o meio ambiente’’, explica.

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