Joana: um ano de coração colado
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sábado, 21 de março de 1998
Osmani Costa 
Dorico da SilvaDireção certaNo automóvel: desde a cirurgia, saúde de Joana Woitas vai bemApesar de ter nascido em 20 de junho, a funcionária pública aposentada Joana Messas Woitas, de 69 anos, fez ontem um festa familiar com direito a almoço, bolo, velinha, parabéns e todo o clima típico de aniversário. A comemoração foi relativa ao primeiro ano depois da inusitada cirurgia cardíaca pela qual passou em 21 de março de 97, no Hospital Evangélico (HE) de Londrina. Na cirurgia, foi usada a cola Super Bonder.
Eu, que gosto muito de baralho e de jogar em bingos, tive a sorte grande. Acho que acertei na Sena, porque na verdade escapei da morte certa e ganhei nova vida. Hoje, estou ótima, levando uma vida normal. Agradeço muito a Deus, ao meu médico Icanor Ribeiro e ao cirurgião Francisco Gregori Júnior, por continuar vivendo ao lado dos meus familiares e amigos, comenta a viúva Joana Woitas, que mora em Bela Vista do Paraíso (40 quilômetros ao norte de Londrina), tem cinco filhos, 15 netos e oito bisnetos.
Na cirurgia, Gregori fechou o buraco de um centímetro de diâmetro no coração de Joana, que sofrera um infarto, utilizando pingos da cola instantânea de alta aderência nas placas de celulose. O inédito uso da cola - que tem componentes tóxicos e não é esterilizada - para fins médicos, como último recurso para salvar a vida de um paciente, só foi divulgada pelo cirurgião no final do mês passado.
Para o almoço e festa de ontem estavam convidados, além dos parentes e amigos, o cardiologista Icanor Antonio Ribeiro - que cuida do coração e da saúde de Joana há quase 20 anos - e Francisco Gregori Júnior, responsável pelo uso da Super Bonder na cirurgia que recuperou o coração e manteve Joana Woitas viva.
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Fiquei assustada, meio nervosa, quando soube que meu coração tinha sido colado com a Super Bonder. Descobri isso assistindo a uma entrevista do Gregori na televisão. Ele e o doutor Icanor nunca tinham falado nada para mim sobre a cola, comenta Joana Woitas, que desde 1979 tem problemas cardíacos e em 1984 se aposentou por invalidez. O choque da notícia foi tão grande que meu coração voltou a doer por uns dois dias, Acho que foi problema psicológico. Agora, estou muito bem.
Ela conta que parou de fumar e engordou quase dez quilos neste ano depois da cirurgia. Hoje, estou melhor do que antes. Por 20 anos eu sofri com dores no peito, falta de ar e pressão alta.
A aposentada, que durante décadas foi inspetora de alunos em colégio estadual, afirma que nunca mais se encontrou com Francisco Gregori depois da cirurgia. Ela não o recrimina pelo uso da cola. Pelo contrário, eu só tenho a agradecer. Ele sempre me telefona para saber como estou. Agiu com muita emoção quando usou a cola. Para ele, que estava me vendo morrer, foi como um último recurso. Ainda bem que deu certo, e eu estou aqui viva para contar a história.
Joana Woitas recuperou-se bem e voltou à rotina anterior. Hoje, ela cuida da casa onde mora sozinha, gosta de cozinhar, lava as próprias roupas, dirige seu automóvel e encontra forças - às vezes até de madrugada - para o passatempo que mais gosta: jogar baralho ou apostar nos bingos de Londrina. Acho que, de tanto jogar no bingo, acabei acertando na loteria. Eu tenho consciência de que só não morri por um golpe, uma jogada de muita sorte. E devo isso ao Gregori. A ele, a Deus, ao Icanor e a toda a equipe médica do Evangélico e da Unimed, que sempre me trataram com muito respeito, competência e o maior carinho.
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Joana Woitas conta que a equipe médica já havia comunicado aos familiares que o estado de saúde dela era grave e a recuperação quase impossível, na manhã do dia da cirurgia. Demorou, mas eu fiquei famosa. Já saí nos jornais, no Fantástico, fui convidada para ir no Sílvio Santos. Só quero saber quando vão começar a me pagar por tantas entrevistas. Afinal, estou quebrada financeiramente e precisando de algum para apostar no bingo, brinca a primeira mulher brasileira que teve a vida salva por uns pingos de cola.


