‘Jesus perdoa
a barbaridade
que eu cometi’
Garçom tem 29 anos de prisão a cumprir
Marcos Zanatta
Marcos NegriniConvertidoJamir Valentim Vieira, que matou estudante e cremou o corpo em Sarandi, virou evangélico e espera o perdão
O julgamento do garçom Jamir Valentim Vieira, 24 anos, na última quarta-feira em Maringá, atraiu mais de mil pessoas ao Fórum da cidade. O movimento no plenário do tribunal do júri foi intenso durante as 13 horas de trabalhos. Duas emissoras de TV da cidade transmitiram o julgamento ao vivo.
Os sete jurados demoraram três horas para definir o veredito e depois da leitura do resultado, que condenou Vieira a 29 anos e um mês de prisão em regime fechado, o público parecia um pouco frustrado.
O próprio juiz Luiz Carlos Gabardo disse após a divulgação da pena que Jamir Vieira ainda estava em vantagem sobre a vítima, o estudante Cleudison Bernardi, 14 anos, morto e cremado em junho de 1996. ‘‘Você ainda tem a vida para cumprir a pena’’, afirmou o juiz.
Um dia depois de ser condenado, Jamir Vieira compleou 24 anos. Em entrevista à Folha, ele disse não querer falar sobre o crime e ter considerado a pena normal.
Folha-O que você achou da pena?
Jamir Vieira-Cabível, né.
Folha-Antes do julgamento você esperava uma pena menor?
Vieira-Mas eu estava ciente dos fatos e acho que o resultado foi normal.
Folha-Como era sua vida antes de chegar em Sarandi?
Vieira-Normal, tranquilo, sempre tive bom comportamento.
Folha-Você chegou a passar por um seminário no Rio Grande do Sul, onde morava?
Vieira-Fiquei no seminário de Passo Fundo durante dois anos, não era interno, mas minha vontade era de ser padre.
Folha-Porque desistiu?
Vieira-Desisti quando vim trabalhar no Paraná, conhecer cidade grande. Vim para Foz do Iguaçu, onde fiquei seis meses antes de Sarandi.
Folha-Como você veio para Sarandi, por intermédio de quem?
Vieira-Por intermédio do Antonio mesmo (Antonio Bernardi, pai de Cleudison).
Folha-Você já chegou com a intenção de praticar algum crime ou decidiu depois que chegou e viu que o Bernardi tinha posses?
Vieira-Não, eu planejei alguns dias antes. Só que eu gostaria de não falar mais sobre o assunto.
Folha-Qual era seu relacionamento com o Cleudison?
Vieira-Era o melhor possível.
Folha-Ele frequentava o seu quarto?
Vieira-A única vez que ele entrou no meu quarto foi no dia do crime.
Folha-Qual seu relacionamento com mulheres, teve namoradas?
Vieira-Sempre tive namoradas. Meu relacionamento com mulheres sempre foi o melhor possível.
Folha-O que acha do homossexualismo?
Vieira-Na Bíblia fala que isso é uma coisa errada, então sou contra homossexualismo.
Folha-Depois de desvendada a morte de Cleudison o comentário foi que existia uma relação entre você e ele.
Vieira-De maneira alguma. Realmente sou contra o homossexualismo.
Folha-Você não pensou em outra forma de conseguir dinheiro, roubando a churrascaria ou assaltando?
Vieira-Não, eu pensei nisso mesmo, no sequestro.
Folha-Como foi sua infância?
Vieira-Tive uma infância pobre. Morava na zona rural, no campo, mas comida nunca faltou. Infância pobre que eu falo é que não era igual a de outras crianças, sempre inferior.
Folha-Qual o relacionamento com sua família hoje?
Vieira-Hoje eu perdi o contato com eles.
Folha-Ninguém da família veio te ver aqui?
Vieira-A única pessoa que chegou a ligar para mim foi um professor.
Folha-Quantos irmãos você tem?
Vieira-Dois irmãos e três irmãs.
Folha-Eles estão sabendo de seu crime, de sua prisão. Acha que eles te perdoam?
Vieira-Creio eu que eles estão sabendo de tudo, mas não tenho certeza se me perdoam.
Folha-Depois de confessar você disse que o crime tinha base em filmes de terror e supense que assistia na TV. É verdade?
Vieira-Não diria mais isso. Acho que a televisão influi um pouco, mas o culpado não é a televisão e nada, o culpado fui eu mesmo.
Folha-Como você se converteu em evangélico?
Vieira-Me converti ainda na cadeia de Maringá, através de alguns evangélicos que eram presos e me convidaram para participar do grupo de orações deles. Com o tempo eu fui me convertendo, conhecendo a Bíblia.
Folha-Como tem sido sua vida na cadeia até agora e como você acha que vai ser daqui para frente?
Vieira-Sempre tive um bom comportamernto na cadeia, estou pregando o Evangelho, feito estudos bíblicos, estudando teologia. É isso que eu vou fazer até o fim. Quero ser pastor quando acabar a pena.
Folha-Pretende trabalhar lá?
Vieira-Trabalhar, estudar, tudo que eu tiver direito lá dentro eu quero fazer. Menos mau comportamento, se envolver em brigas, isso não. Até porque vou pedir para o chefe de segurança para ficar na ala dos evangélicos, junto com os evangélicos, e eu vou ficar feliz por isso. Minha intenção é pagar pelo que eu fiz e esquecer, mesmo sabendo que é difícil esquecer. Tomar vergonha nessa minha cara e sair regenerado.
Folha-Cumprindo a pena integral você vai sair com mais de 50 anos da cadeia. O que você pretende fazer quando sair?
Vieira-Pretendo estudar né, vou ver que estudo faço na penitenciária e conforme o que eu me sair melhor quero ter uma profissão definida.
Folha-Você acha que Deus te perdoa?
Vieira-Eu acho que sim. Acredito que Deus me perdoa, Jesus me perdoa, apesar da barbaridade que eu fiz. Mas agora eu tenho que provar, fazer jus a isso, a cada dia pedir para sair daqui regenerado mesmo.

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