Jessina Dantas, 43 anos e 10 filhos, carrega o menor deles nos braços. O bebê tem quatro meses de idade e o mais velho, já casado, completou 24 anos. Jessina, o marido Izaú - também com 43 anos - e os filhos fazem parte do grupo de famílias de assentados que foram obrigados a enfrentar anos de bóia-fria e meses de acampamento até conseguir um pedaço de terra:
- Nunca tivemos um pedaço de terra. Eu trabalhei pelo menos 10 anos como bóia-fria e o meu marido também sempre trabalhou como empregado.
É por isso que ela diz que dá hoje muito valor aos nove alqueires que conseguiu no assentamento Margarida Alves, em Querência do Norte.
- Meu marido já plantou mandioca e café. Não fosse este lote, as crianças hoje estariam trabalhando como bóia-fria. E o dinheiro da bóia-fria, todo mundo sabe, recebe e no mesmo dia não tem mais nada.
Izaú já tem café adensado plantado em seu lote, mas durante a semana trabalhava no plantio de mais mudas. Segundo ele, a família teve que participar de três ocupações na região de Querência até conseguir o assentamento.
- No começo da época do Collor (ex-presidente Fernando Collor), fui obrigado a deixar a mulher e os filhos aqui e trabalhar no Rio de Janeiro, como pedreiro. Mas ele lançou o plano (pacote econômico) e eu tive que voltar.
Este ano Izaú colheu 227 toneladas de mandioca. Todo o dinheiro que obteve na comercialização do produto foi investido na terra. Ele, a mulher e alguns dos filhos menores dormem em um pequeno barraco de tábuas. Ao lado, outro barracão abriga as outras crianças e adolescentes. Agricultor experiente, Izaú carrega até no discurso os queixumes dos produtores que, ao contrário dele, não tiveram que amargar meses de sofrimento até conseguir a terra.
- Se vier seca, o café novo que estou plantando não vai aguentar. Temos aqui no assentamento só um poço de água. Não dá.
Mais alguns poucos quilômetros rodados bastam para chegar à Fazenda Paraíso, com cerca de 200 alqueires. O assentamento ainda não chegou na área, que abriga 46 famílias, mas a promessa de realização do sorteio dos lotes nas próximas semanas provoca ânimo.
Apenas 17 delas vão permanecer no Paraíso, de acordo com critérios do Incra: como a terra é fraca, os lotes deverão ter tamanho de até 11 alqueires. A expectativa das famílias é de que o grupo excedente seja encaminhado para algum outro assentamento em formação.
- Muitos de nós já faz tempo que estamos na luta - informa José Carlos, 30 anos.
Outro tema que deverá tomar conta das assembléias das famílias, depois que o sorteio dos lotes for realizado, é o sistema de produção. A dúvida está entre produzir coletivamente ou cada um ser dono do seu lote e de sua produção.
Wilson, 26 anos, participa do Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) há cerca de três anos e respira aliviado quando diz que finalmente está prestes a conseguir um pedaço de terra.
- Mas o importante de ter participado desta luta é a consciência que a gente adquire. Acaba o individualismo e o egoísmo. Passa todo mundo a pensar com uma cabeça só.
Amauri, 25 anos, passou a integrar o MST recentemente. Ele é morador da Fazenda Paraíso, onde a mãe, Otília Batista Rocha, vive há cerca de 33 anos. Ela, que tem 65 anos de idade, teve sete dos seus 11 filhos na propriedade. O marido faleceu há três anos.
- Vivemos sempre aqui, arrendando, empreitando ou trabalhando como empregados.
Quando o assunto é o sorteio dos lotes, dona Otília tenta mostrar que não tem lá muito interesse. Mas acrescenta, jogando responsabilidade no filho Amauri:
- É ele que quer o lote para poder produzir. Se der sorte, melhor.
Amauri pretende trabalhar com pecuária leiteira, por considerar a atividade mais adequada para o pequeno proprietário de terra.
- O leite é pouquinho, mas todos dia pode ser comercializado e todo dia entra dinheiro. E pela graça da reforma agrária, vamos ter pelo menos uns 10 alqueires de terra para trabalhar.
No outro extremo de Querência do Norte, o Pontal do Tigre, com 8.096,10 hectares, é a maior área de assentamento do município. São 336 famílias regularizadas no local a partir de 1995 e tendo a produção de arroz irrigado como principal fonte de renda.
Já na vizinha localidade de Santa Cruz do Monte Castelo, uma das mais recentes ocupações reúne cerca de 80 famílias em uma propriedade rural localizada praticamente dentro da zona urbana.
‘‘Romualdo’’, que se apresenta como coordenador do acampamento, diz que a propriedade está totalmente abandonada e o proprietário é de Presidente Prudente (SP).
Cerca de dois meses antes a fazenda havia sido invadida por outro grupo, que segundo moradores da cidade, era formado por pessoas da própria localidade. A Justiça, naquela ocasião, determinou a reintegração de posse. (W.O.)

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