Jardins para todos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de março de 2009
Carolina Avansini<BR>Reportagem Local 
Flores coloridas ornamentadas por folhagens vistosas, que chamam a atenção pela beleza do cultivo aleatório, feito de acordo com a intuição e a vontade do jardineiro. Em alguns bairros habitados pela população carente de Londrina, a falta de condições financeiras não é motivo para impedir que se tenha um belo jardim na frente de casa.
Nas residências onde a regra é que mais de uma família divida os poucos metros quadrados de construção, latas e baldes transformam-se em vasos, pedras retiradas de entulhos fazem caminhos entre as plantas e as mudas, trocadas entre vizinhos e parentes, são dispostas com simplicidade, independentemente de qualquer projeto paisagístico.
A aposentada Devina Sanches Ferreira, de 66 anos, cultiva flores, ervas medicinais e alguns temperos num pequeno quadrado construído na frente da casa simples localizada no Jardim Campos Elíseos (Zona Sul). No terreno reduzido onde foram feitas duas casas para ela e a família da filha morarem, a senhora apaixonada por plantas conseguiu reservar um espaço para o verde.
Mesmo com uma doença na coluna que a impede de andar, ela visita o jardim todos os dias, na companhia dos netos, para regar e cuidar. ''Uma casa sem flores fica muito triste. A coisa mais linda da vida é poder cultivar'', disse ela, que sempre comemora a florada das orquídeas e outras espécies. ''Fico esperando elas abrirem.''
Ex-moradora do Jardim Franciscato, Devina conta que cultivava uma horta num terreno baldio do bairro, cuja produção era doada para os vizinhos. ''Nunca vendi nada. Quem doa também recebe'', considera.
Na casa vizinha, a dona de casa Anísia Soares da Silva, 58 anos, cultiva um jardim mais sóbrio, com gramado, arbustos, uma palmeira e algumas rosas. ''Aprendi a cuidar de plantas no sítio e tive jardim em todas as casas onde morei'', revela a senhora, que não utiliza adubos e outros insumos para garantir o viço das espécies. ''A terra aqui é bem fértil.''
Anísia nunca comprou mudas para cultivar em casa. Como é comum nos bairros carentes, ela ganha as plantas de vizinhos e parentes. Cultivadas no solo, os ''presentes'' alegram e ocupam a dona de casa, que corre para o jardim sempre que tem algum problema ou preocupação. ''Cuidar das plantas me distrai'', disse.
A história se repete no Jardim Paraíso, na Zona Norte da cidade. Na casa onde a aposentada Vera Lucia Bugatti, 52, mora com uma filha e quatro netos, o jardim ocupa uma área maior do que os poucos cômodos que acomodam a família. ''Adoro as minhas flores, passo muito tempo cuidando para o jardim ficar cada vez mais bonito'', contou. Apesar da profusão de cores espalhadas pela área, ela não gosta que as plantas sejam arrancadas e colocadas em vasos. ''O lugar delas é na terra. Assim fica muito mais bonito'', avisa.
Apreciadora do verde em contraste com o colorido das flores, Vera também gosta de contemplar o jardim enquanto costura. ''É muito bom ter uma casa cheia de plantas. A gente fica mais alegre, mais cheia de vida.''


