Jardineiro 'transforma' lixo em roupa
Mauricio Della Barba
De Londrina
Montado em sua bicicleta adaptada apenas com uma velha caixa de plástico na garupa, o jardineiro Valcuruci Jorge dos Santos, mais conhecido também como Seo Jorge, realiza um trabalho que poucos teriam coragem e vontade de fazer: transforma lixo em roupa nova.
Todos os dias, pelas ruas da cidade, o jardineiro sai em busca de todo e qualquer lixo reciclável que encontra pelo caminho, para depois vendê-lo e convertê-lo em roupas novas para crianças e bebês carentes do seu bairro.
Esse é o meu jeito de ajudar as pessoas. Não custa nada para mim e é uma maravilha para quem recebe, diz Jorge, o jardineiro oficial da Câmara de Vereadores de Londrina, onde é funcionário há 8 anos.
Diariamente, das 7 horas da manhã até às 16 horas da tarde, o jardineiro cumpre exemplarmente sua função, deixando as flores e os jardins da Praça dos Três Poderes em plena vitalidade.
Não é a toa que, por lá, Jorge é figura carimbada e que merece constantes comentários. Ele é bastante humilde e divertido, brinca um dos seus amigos de trabalho.
Porém, o jardineiro que mora com a mãe e mais cinco sobrinhos em uma simples casa no Jardim Marabá, na zona leste da cidade, há cerca de 36 anos tem um outro lado que passa despercebido para quem só o conhece quando está envolvido com as plantas.
Solteiro, com 39 anos, o jardineiro faz do seu trajeto diário entre sua casa e o trabalho e também no retorno da Câmara de Vereadores para casa uma verdadeira limpeza de ruas.
Vou andando e recolhendo todas as latas de cerveja e refrigerante jogadas nas ruas e nos lixos, explica. Apesar do itinerário feito pelo jardineiro ser longo e demorado, a compensação é positiva. Para vir ao trabalho, coleto o que está mais fácil. Na volta tenho mais tempo e cato tudo que é possível.
O garimpeiro das ruas faz questão de salientar as características e a importância do lixo arrecadado. Só pego latas, jornal velho e cobre. Não cato garrafas plásticas, pois além de não saber onde vender, elas ocupam muito espaço, esclarece.
Todo o lixo reciclável que Jorge coleta cerca de dois quilos por dia é guardado no quintal de sua casa. Quando é cobre, escondo dentro de casa. Já me roubaram dois sacos de latas uma vez.
Jorge diz não ligar para as mãos alheias. Se quem roubou estava precisando, tudo bem. Vai fazer o bem do mesmo jeito, diz.
Depois de coletado uma quantia grande de lixo, Jorge vende tudo. O dinheiro arrecadado, que varia de R$ 50,00 a R$ 70,00, é utilizado para a compra de roupas para crianças.
Quando pego o dinheiro, já separo e não mexo nele, relata o jardineiro, que recebe R$ 300,00 de salário ao mês como servidor público municipal.
Jorge sabe na ponta da língua os preços pagos pelo quilo de cada material coletado.
As latinhas custam R$ 1,40; o papel jornal R$ 0,20; o alumínio, de panelas e trilhos de cortinas, R$ 1,80; e o cobre R$ 2,00, informa.
De posse do dinheiro, a tarefa do jardineiro passa a ser mais simples e menos trabalhosa. Ele vai até uma loja na Rua Sergipe (centro) e escolhe pessoalmente as roupas a serem doadas.
Compro macacões para bebês, camisetinhas e fraldas. Escolho as mais baratas. Na loja, Jorge diz que ninguém estranha o fato de ele comprar tantas roupas de bebês, pois todos já sabem de seu trabalho voluntário.
Alguns vendedores até ajudam a escolher, informa o servidor.
Novamente com a caixa da bicicleta cheia, agora com roupas, Jorge volta para sua casa para dividir as compras feitas.
Separo em sacolinhas com os nomes para quem vou dar.Cada mês, segundo o jardineiro, as sacolas são dsitribuídas para cerca de 30 famílias diferentes.
A escolha das pessoas a serem beneficiadas também é feita mediante uma prévia e meticulosa pesquisa.
Lá no bairro tem grávidas a toda hora. Para saber mesmo quem é que está precisando eu dou algumas passadas nas casas durante duas semanas, e vejo como está a situação das pessoas.
Outra iniciativa de Jorge é digna de aplauso. O jardineiro transforma revistas pornográficas em informações para os pais e mães do Marabá.
Troco as revistas pornográficas usadas por revista para pais e filhos. Ali sempre tem algo de bom para ensinar as famílias com crianças.
O jardineiro também procura arrecadar roupas para adultos, mas diz que está quase desisistindo da tarefa.
Tento ajudar, mas muitos, depois de aceitar a roupa, jogam fora na outra esquina. Isso chateia muito. A gente labuta, labuta e a pessoa renega depois. Não dá né?
As poucas roupas de adultos que recebe Jorge envia para o Hospital Universitário. No último mês levei dois sacos para lá, conta.
Apesar de raros, os brinquedos são outras coisas que o jardineiro gosta de doar. Recebo poucas doações de brinquedos velhos e quebrados. Mas quando chego com alguns, a molecada fica doida que só vendo.
O trabalho de garimpagem de Jorge não pára nem nos finais de semana, quando no comando de um carrinho de mão o jardineiro parte para a sua aventura diária e percorre os principais pontos da cidade em busca de mais lixo.
Ia sempre na Feira da Lua, mas existe outro catador lá que não gostou da minha presença. Para não arrumar confusão não voltei mais lá.
Jorge mandou confeccionar também cerca de 4 mil santinhos, onde pede a doação de roupas e outros materiais recicláveis.
Sem ajuda de ninguém, o jardineiro gasta R$ 0,10 para fazer cópia de uma página com seis santinhos.
Distribuo nos prédios e para as pessoas que encontro. É só ligar para mim que passo para pegar as doações assim que saio da Câmara, diz, mostrando o bilhete com o seu telefone (43) 329-0083.
O jardineiro diz se emocionar com o trabalho que realiza. Ele conta que uma vez conseguiu impedir uma jovem mãe de doar seu filho recém-nascido.
Na hora que a criança saiu do ventre, a mãe avisou que iria doar a criança, pois não tinha condições de criá-la. Perguntei se ela queria realmente ficar com o bebê e ela me disse que sim. Então, falei: ela será tua, pois garanto que te ajudarei sempre que precisar. Choramos os dois, como crianças. Foi muito emocionante, relembra o jardineiro.
Quando questionado sobre o motivo que o leva a realizar esse trabalho, Jorge não tem uma explicação. Acho que é Deus. Me sinto bem fazendo o que faço e continuarei fazendo enquanto puder. Tá no sangue.
VALCURUCI JORGE DOS SANTOS
Profissão: jardineiro
Destaque: solidariedade
O que faz: coleta lixo e vende, para com o dinheiro comprar, pessoalmente, roupas para crianças carentes
Motivo: Apenas um jeito de ajudar





