Jardim Olímpico
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 06 de outubro de 1997
Lúcio Horta 
Londrina
Josoé de CarvalhoQuando você não tem para onde ir, não tem onde morar, é muito difícil. E aqui pelo menos é da gente
Ederval Faustino, morador do Olímpico 2Uma cidade sem praça, sem igreja, sem hospital, sem prefeitura, sem delegacia, quase sem nada. Nome de rua, nem pensar: apenas números, identificando a quadra e o lote. A única coisa que se vê na cidade são os barracos - alguns de lona plástica, a maioria de madeira e um número cada vez maior de alvenaria -, dispostos entre as ruas de terra. E, claro, gente, muita gente, andando de um lado para o outro.
Se fosse contar somente os moradores do assentamento Olímpico 2, ou João Turquino, como também é chamado, na zona oeste de Londrina, daria tranquilamente para formar uma bela cidade. Maior do que muitas do Estado do Paraná. No local, encontram-se hoje pelo menos 750 famílias, entre assentamento da Companhia de Habitação (Cohab) e ocupação irregular. Multiplicadas por cinco - método empírico utilizado pela própria Cohab para calcular população de assentamento urbano -, o resultado revela que aproximadamente 3,7 mil pessoas vivem no local. Isso sem contar uma outra ocupação, bem ao lado do Olímpico 2, que apesar de estar em Cambé é, na prática, quase um vizinho de parede. Tanto que já está sendo chamada de Olímpico 3. Aí a soma ultrapassaria os cinco mil moradores.
Josoé de CarvalhoAqui está ótimo, a vista é bonito para todos os lados. Quero fazer aqui uma casa bem feita e viver sossegadaA comparação é inevitável. Com 399 municípios, o Estado do Paraná tem pelo menos 50 deles com cerca de 3,5 mil moradores. Nova Aliança do Ivaí, por exemplo, tem apenas 1.225 habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Flórida é um pouco maior: 2.280 habitantes. Conselheiro Mairinck e Nova América da Colina, pouco mais de 3,5 mil. Somando as pessoas que estão na ocupação de Cambé, o Olímpico 2 teria uma população maior que a de Campo Bonito, Cruzeiro do Iguaçu, Cruzeiro do Sul e Diamante dOeste, Rancho Alegre, Leópolis, entre outros, todos com menos que cinco mil habitantes. E todas cidades de verdade.
Surgido entre 1995, quando a Cohab assentou 144 famílias de ocupações irregulares em outras regiões da Cidade, o Olímpico 2 em poucos meses passou a receber centenas de famílias que não tinham mais opção de moradia no restante da Cidade. Foram para lá por falta de opção. O desemprego e o aluguel alto foram pontos decisivos para que o pessoal deixasse a antiga moradia para arriscar a vida, em princípio, debaixo da lona plástica. Com isso, a população cresceu, inchou, e continua crescendo. Tanto que muitos barracos já foram substituídos por casas de alvenaria e até sobrados.
Foi assim com o comerciante Ederval Faustino, 32, casado e com dois filhos. A gente estava no fundo de vale do Aquiles Sthenghel (zona norte) e a maioria acabou vindo para cá, diz Faustino. Ele explica que no fundo de vale as famílias viviam com receio de serem despejadas, já que se trata de uma ocupação irregular. Como a Cohab tinha acabado de assentar as 144 famílias, eles acharam que também poderiam conseguir um pedaço de terra para morar com tranquilidade.
O comerciante lembra que foi um dos primeiros a chegar na ocupação. Mas que em pouco tempo, gente de todos os cantos da Cidade também partiu Olímpico. Só do Aquiles, junto comigo, foram 85 famílias, mas veio gente até de Cambé, conta. Faustino levantou a sua casa e, como serviço estava difícil, resolveu montar um bar no novo bairro, no mesmo imóvel em que mora com a família. Isso aqui é mesmo para tapear, porque o que mais tem aqui é gente desempregado. O bar vende pouco, lamenta.
Ederval Faustino viu o Olímpico 2 crescer e conhece como poucos os problemas do bairro. Para ele, a maior dificuldade é a falta de iluminação nas ruas (a energia elétrica está limitada às casas). À noite fica muito escuro, não dá para facilitar. Eu mesmo não saio na rua depois que escurece, diz. Outro grande problema é com a água. As 144 famílias que foram assentadas ganharam cavalete (hidrômetro) individual, mas o restante - cerca de 600 casas - tem que dividir o consumo com apenas 10 cavaletes. No final de semana, quando as mulheres vão lavar roupa, falta água direto. O ideal é que as ligações fossem individuais, aponta. Para piorar, existe uma dívida junto à Sanepar de Londrina, já que os moradores nunca pagaram a conta de água.
Esgoto, como não é dificil imaginar, não tem mesmo. Quem tem fossa joga na própria fossa. Quem não tem, joga na rua. Tem gente que à noite faz às necessidades debaixo do poste mesmo, já que não tem luz na rua, diz o comerciante.
O lixo produzido pelos moradores também é um problema visível em cada esquina, principalmente nas ruas que dão acesso ao assentamento. Faustino conta que o caminhão até passa, duas vezes por semana (terça e quinta-feira), mas não dá conta de recolher tudo. O pessoal coloca o lixo em saquinho, mas aí vai o cachorro e rasga tudo e o lixo acaba ficando para trás. Nem é culpa do lixeiro, acredita.
Quando chove no Olímpico 2 também é um drama. As ruas, que apresentam um grande declive, não têm moledo (pedra) e a terra vira lama com facilidade. Nestas situações, se a pessoa precisa sair de casa correndo para ir a um hospital, por exemplo, está perdida: o veículo que está na parte de cima do assentamento não desce de jeito nenhum; e o que está embaixo não sobe. Até na parte de cima, onde tem moledo, o ônibus não corre direito, derrapa. É um perigo, acrescenta Faustino.
Além de tudo, o comerciante reclama que até para mandar uma carta é difícil. Aqui tá tipo lugar abandonado: não tem correio, não tem CEP nas ruas, não tem um telefone público. Se precisar de um, tem que ir lá em cima, no bairro, lamenta. Ederval Faustino observa que, além de todos os problemas, quem mora no Olímpico 2 ainda é obrigado a conviver com o preconceito de moradores de outras regiões. Na hora de procurar um emprego, ele aponta, é comum a pessoa mentir e contar que mora em outro lugar da Cidade para ter as mínimas chances. As pessoas falam que aqui só tem bandido, mas não é verdade. Por causa de um ou dois a gente leva a fama.
Subtraindo os problemas, sobram as esperanças. O que mais interessa hoje para Faustino e a arrasadora maioria dos moradores da ocupação no Olímpico 2 é que a situação junto à Cohab seja de fato normalizada, para espantar de vez o fantasma do despejo. O assessor social da Cohab, Humberto Rodrigues de Lima, diz que a companhia está concluindo o levantamento de todas as famílias do bairro. A intenção é regularizar a situação de todos tão logo seja possível.
Eu gosto daqui pelo seguinte: quando você não tem para onde ir, não tem onde morar, é muito difícil. E aqui pelo menos é da gente. Pagar aluguel, hoje em dia, para o pobre, não dá, observa Faustino.


