Japoneses reproduzem a tradição do moti
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sexta-feira, 31 de dezembro de 2004
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Um deus habita no moti alimentado pela tradição milenar que a colônia nipo-brasileira londrinense reproduz todos os anos. A crença oriental diz que em cada grão de arroz mora um espírito da planta. Ao possuir incontáveis grãos, o bolinho da sorte assume poderes divinos - um prato que não pode faltar na mesa dos japoneses no Ano Novo.
No Japão, os praticantes do xintoísmo visitam os templos para oferecer moti aos deuses, pedindo proteção divina. Para 40 nipo-brasileiros londrinenses, ontem foi dia de preparar o cardápio da sorte. A produção já estava vendida antecipadamente ao preço de R$ 10,00, o quilo.
Os adeptos da tradição que não garantiram a sua porção do bolinho podem participar da distribuição de ozoni, uma sopa de moti com legumes, que a comunidade promove amanhã, a partir das 9 horas, na Associação Cultural e Esportiva de Londrina (Acel).
Para dar conta de fazer 500 quilos de moti, o que rende cerca de 6 mil bolinhos, o pessoal acordou cedo.
Deixado de molho na água durante a noite, o arroz é cozido em banho-maria e depois, ainda quente, é colocado num pilão, que se chama usu. Este ano, o ''petanko-petanko'' - onomatopéia a que os japoneses recorrem para falar sobre o barulho da massa no pilão - foi quebrada por uma novidade, já que até os hábitos mais tradicionais se abrem às novidades.
Pela primeira vez, o grupo que prepara os motis está usando uma máquina fabricada pelo industrial George Matsumoto, 74 anos. O equipamento economiza tempo e o trabalho dos homens no pilão.
''A primeira máquina dessas que fabriquei foi em 1949'', explicou Matsumoto, que se inspirou nas panelas de madeira de triturar arroz. A sua criação é feita de aço e tem um motor com uma espécie de espátula para fazer a trituração do arroz motigome, que tem consistência apropriada para a confecção do bolinho da sorte.
É difícil encontrar um jovem participando desse trabalho, que para os homens ainda é pesado. Apesar de facilitar o serviço, a máquina não exclui a necessidade de pilar a massa.
A tradição compensa o esforço ao afirmar que os que se dedicam ao trabalho garantem um quinhão de sorte. As mulheres ficam responsáveis por confeccionar os motis.
''Seria bom termos a presença dos jovens. Alguns tentam aparecer um ano e o outro não aparecem. Eles reclamam da dificuldade em bater o pilão. Acaba ficando para os velhos'', afirmou Matsumoto.
Se faltam jovens nesse dia de confraternização ao redor do moti, sobram pessoas com mais de 80 anos de idade.
Desde que imigrou do Japão, aos 13 anos, dona Katsue Santo Sato, 83 anos, mantém a tradição de fazer o moti no Ano Novo para atrair sorte. A idade não impediu que começasse estudar Português, Matemática e Ciências, arrumando um tempinho na agenda para fazer o bolinho japonês. ''Todo mundo no Japão é acostumado a comer moti para pedir saúde no Ano Novo, né'', lembrou a imigrante.
Para que a receita da sorte e fartura não desande no Ano Novo, o aposentado Katuki Horikawa dá uma dica: ''O arroz é um dos símbolos da riqueza no Japão. Aquele que se alimenta de arroz na virada do ano terá sorte o ano inteiro. Sempre fui feliz, sendo que nunca me faltou nada. Mas para isso, acredito que a pessoa precisa viver de acordo com o que tem. Assim vive feliz. Quando a gente quer sempre mais do tem, fica frustrado'', afirma Horikawa, pondo um ponto final na conversa com a tradicional sabedoria oriental, aliada a de quem já chegou aos 65 anos.


