Dar a volta ao mundo de bicicleta, sem prazos, datas, nem sequer um programa bem elaborado. Seguir quase sem rumo, apenas apreciando a paisagem, conhecendo lugares e encontrando todo o tipo de gente. Quem nunca sonhou em fazer uma viagem dessas?
Pois o japonês Masashi Toya, 33 anos, está exatamente no meio de uma empreitada assim. Ele saiu do Japão em maio de 2002, rumo à Austrália, seguiu para a Nova Zelândia, desceu toda a costa leste norte-americana, do Alasca ao México, percorreu toda a América Central, desceu para a Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Argentina, Uruguai, Paraguai e enfim chegou ao Brasil via Foz do Iguaçu, onde impressionou-se com as Cataratas. Tudo isso de bicicleta. Ele calcula que pedale em média 60 a 70 km por dia, mas a meta é chegar a 100 km diários. ''No começo cansava um pouco, agora o corpo já se habituou'', conta.
Atualmente em Londrina (mas sem saber até quando), o viajante está sendo ciceroneado pelo representante comercial Yoshiaki Otsuka, a quem conheceu por acaso em Campo Mourão. Além de apresentar a cidade e dar orientações em relação à segurança e ao dia-a-dia no País, Otsuka ainda levou o turista para jantar em uma churrascaria. ''Não é todo dia que você vê esse tipo de coisa. A viagem já é difícil, então é preciso ajudá-lo, para que tenha mais ânimo para continuar. Assim, pelo menos alguma coisa boa de Londrina ele vai levar'', justifica.
Mas nem tudo é tão fácil em uma empreitada dessas. Na Nicarágua, jogaram uma manga em suas costas, sabe-se lá por quê. Ele também enfrentou um calor de quase 50ºC na Austrália e ventos extremamente fortes na Patagônia. A natureza, porém, também é a responsável por seus momentos mais agradáveis durante a viagem. ''Adoro ver as paisagens, montanhas, cachoeiras. Essa é a parte que eu mais gosto.''
Outro obstáculo enfrentado por Toya é o fato de só falar japonês. Porém, os anos passados em países de língua espanhola já permitem que ele arrisque algumas frases na língua latina. ''As pessoas dos países latinos são mais acolhedoras. Nos países de língua inglesa, quando eu dizia não falar a língua deles, eles se retraíam. Na América Latina não, as pessoas continuam tentando se comunicar, seja com um dicionário na mão ou por meio de gestos'', compara, afirmando que seu vocabulário em espanhol e agora português, vem aumentando.
De Londrina, seus próximos objetivos são Brasília, São Luiz e Belém. De sua terra natal, o que lhe faz mais falta é a comida, já que a internet trata de amenizar a saudade de familiares e amigos. ''No começo minha família insistia para eu voltar logo, mas depois de um tempo eles desistiram'', diverte-se. Para driblar a falta de um tempero japonês, ele passou a carregar shoyu na bagagem. Já para economizar, tem um fogareiro com o qual cozinha arroz e faz missoshiru (a tradicional sopa japonesa, feita de pasta de soja). Ele também já se habituou a procurar os mais diversos lugares para ''acampar'' à noite com sua barraca, inclusive em postos de gasolina.
Toya revela que a vontade de rodar o mundo de bicicleta surgiu quando ainda era adolescente, ao ouvir falar de um caso semelhante. O sonho, porém, teve que esperar ele terminar a faculdade de computação e arranjar um emprego. Para viajar, ele trabalhou cerca de 12 horas por dia durante dois anos e meio, e se mantém até hoje com essas economias. Nesses cinco anos, o viajante só trabalhou em uma entidade japonesa na Bolívia, por seis meses.
Ciente de que o dinheiro de que dispõe não vai permitir que complete seu objetivo - ele ainda pretende passar por toda a África, Europa e Ásia, o que, pelos seus cálculos, vai levar mais cinco anos - o japonês pretende encontrar um emprego temporário em Nova York, para só então partir para outro continente. Depois de tudo isso, quando voltar ao Japão, Toya já sabe em que ramo deseja atuar: turismo, é lógico.

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