Japáo: não há vagas
JAPÃO: NÃO HÁ VAGAS
CRISE NA ÁSIA AFETA DEKASSEGUIS
Osmani Costa
O mercado de trabalho para os dekasseguis está ficando cada vez menor. Em Londrina, muitos brasileiros descendentes de japoneses continuam procurando agências especializadas para trabalhar no Japão. Mas, pela primeira vez em dez anos, há mais pessoas na fila procurando emprego do que vagas sendo ofertadas pelas indústrias do Japão.
É a consequência direta da quebradeira bancária e da depressão econômica que assolam, desde o segundo semestre de 97, os países conhecidos como tigres asiáticos. O Japão, paradigma da prosperidade após a Segunda Guerra Mundial (1939-45), que havia investido muitos bilhões de dólares nos países vizinhos, está sofrendo repercussões ainda não totalmente conhecidas e divulgadas.
Na Tokio Tour, agenciadora especializada no envio de dekasseguis ao Japão, a atual lista de candidatos a um emprego é de 86 pessoas. No ano passado, a agência enviou em média 20 brasileiros por mês com empregos garantidos naquele país. Desde janeiro, o número vem caindo rapidamente. Em abril, somente cinco dekasseguis - filhos, netos ou bisnetos de japoneses - conseguiram trabalho. Em maio, apenas uma pessoa se mudará para o Japão assessorada pela Tokio. Ainda no mês passado, houve o cancelamento do contrato de trabalho com oito londrinenses que já estavam com os vistos de entrada no Japão liberados e com as passagens aéreas compradas.
A situação era previsível desde o final de 97, mas infelizmente não podemos fazer nada para evitá-la, diz Alex Thaizo Nonomura, um dos donos da Tokio Tour em Londrina. A crise do Japão é grande e séria. E o pior é que, a curto prazo, as perspectivas não são boas. As demissões aumentando por lá atingem os brasileiros.
O rombo parece ser mesmo grande. O parlamento japonês aprovou, recentemente, um corte de gastos e remanejamento de US$ 127 bilhões no orçamento de US$ 584 bilhões para o novo ano fiscal, iniciado em abril. Mais da metade da austeridade econômica recai sobre a rubrica de novos incentivos fiscais para a produção e consumo.
Sem produção e consumo, o desemprego é inevitável. A taxa de 3,6% de desempregados na força de trabalho japonesa já é o recorde dos últimos 52 anos no país. Não há números confiáveis nem oficiais divulgados recentemente, mas informações que chegam do Japão pelas agências de dekasseguis dão conta de que pelo menos 30 mil brasileiros - dos aproximadamente 220 mil que lá vivem - estão desempregados. Muitos deles - inclusive famílias inteiras - estariam sem dinheiro para a passagem aérea de volta, para o aluguel e para a alimentação diária.
Entre as 200 mil pessoas que foram trabalhar no Japão, há cerca de 40 mil paranaenses. Eles saíram principalmente de Londrina, Maringá e Assaí (36 quilômetros a leste de Londrina), município com pouco mais de 20 mil habitantes onde predominam os descendentes de japoneses. Hoje, temos cerca de 30 casais e mais dez solteiros na lista de candidatos a dekasseguis, e nenhum emprego para oferecer. A situação piorou muito desde janeiro, conta Delise Aparecida Ribeiro, agente de turismo da Tkashitur há quase 11 anos. Em abril, a agência não mandou nenhum brasileiro para o Japão.
Nos anos anteriores, a agência de turismo enviou por mês entre 20 e 30 dekasseguis para as indústrias japonesas. Os setores que tradicionalmente mais empregaram brasileiros são os de autopeças, aparelhos eletroeletrônicos e alimentação. Agora, a situação se inverteu, afirma a agente de turismo. Aumentaram em muito as exigências de qualificação para a mão-de-obra brasileira, principalmente o domínio da língua japonesa. As poucas vagas em oferta no Japão para dekasseguis, conforme ficamos sabendo, são para pintar prédios, construir pontes, cuidar de granjas de porcos e aves. É o subemprego.
Aumentaram exigências e restrições. Diminuíram horas-extras e salários. Agora, a preferência é por solteiros - descendentes diretos de japoneses - com até 45 anos de idade, pelo menos 2º grau completo e domínio da língua japonesa falada e escrita.
Antes, com a economia estável, produzindo bastante e crescendo, era bom negócio para as empresas japonesas ter empregados brasileiros, porque eles trabalham muito, não têm medo de fazer hora-extra. Agora, com a recessão, os dekasseguis foram os primeiros a ser demitidos, porque as horas-extras se tornaram desnecessárias e eles têm salários em média duas ou três vezes maiores que os dos coreanos e chineses, explica Alex Nonomura.
De acordo com ele, desde o início das demissões em massa, em dezembro último, os salários do operariado já caíram em média 20% no Japão. Os brasileiros formam a terceira maior parcela de trabalhadores estrangeiros naquele país - de aproximadamente 2 milhões de pessoas -, logo atrás dos coreanos e chineses. Em tempos de consumo reprimido e crise econômica, é melhor negócio para as empresas manter os filipinos, coreanos e chineses, que trabalham menos mas são mais baratos, diz o proprietário da Tokio Tour.
Os salários mensais médios recebidos por brasileiros ficam em torno de US$ 3.000,00. Os dados não são precisos, mas estimativas indicam que os mais de 200 mil dekasseguis são responsáveis pela entrada de cerca de US$ 3 bilhões anuais no Brasil. A tendência, a curto e médio prazos, é haver uma diminuição neste envio de dinheiro, até porque a moeda japonesa (yen) vem tendo sucessivas desvalorizações em comparação ao dólar norte-amerciano, desde o final do ano passado. A perda do yen neste período já passa dos 30%. E as remessas de valores ao Brasil só são permitidas em dólares.
Outra das principais agências de turismo da Cidade especializadas em Japão - a Yoshida - conseguiu empregar nos quatro primeiros meses deste ano apenas dez dekasseguis, quando no ano passado a média mensal de trabalhadores encaminhados foi de 15. A diminuição na oferta de empregos é efeito da crise econômica da Ásia, que atingiu a gente com maior força a partir de janeiro, diz o agente de turismo Alberto Anami, da Yoshida. Segundo ele, a crise é diferente e muito mais séria do que as anteriores, por ter diminuído o nível do consumo interno, base da economia japonesa. Ninguém poderia imaginar esse fenômeno.
Hoje, a agência não possui nenhum emprego para oferecer aos brasileiros interessados em se mudar para o Japão. Na lista de candidatos já estão mais de 30 pessoas, com diferentes idades e graus de instrução. A maioria é formada por pessoas que já estiveram por lá e querem ir de novo. A atual crise é séria e não deve passar rapidamente, apesar da força e estabilidade da economia japonesa. Além da diminuição no consumo interno, houve uma grande queda nas exportações, mesmo com a desvalorização do yen. Isso é muito ruim e causa o desemprego em massa, avalia Anami. Ele acha que é preciso ter muita cautela antes de ir para o Japão. Ao contrário do que era normal há alguns anos, agora não dá mais para arriscar e viajar sem emprego garantido. Só encaminhamos o candidato quando há certeza de que ele terá uma colocação.
O visto de entrada no Japão em passaporte de brasileiros é expedido pelo Consulado de Curitiba em cinco dias úteis. O documento custa, nas agências de Londrina, cerca de R$ 80,00 (já incluídos R$ 28,00 de taxa consular). O período de validade da permanência naquele país varia de um a três anos, dependendo da ascendência do dekassegui. Os que comprovam emprego podem renovar sucessivamente, no Japão mesmo, o visto de permanência. Os que ficam sem emprego têm 30 dias para deixar o país após o vencimento do visto.
Os custos da mudança de um dekassegui para o Japão variam bastante - dependendo da agência de turismo, da companhia aérea e do emprego encontrado - mas em média variam entre US$ 2.000,00 e US$ 2.500,00. Depois, esses custos são descontados em holerite, durante seis meses, pela agenciadora japonesa do emprego. As agências de turismo e agenciadoras de emprego londrinenses não divulgam o quanto lucram com intermediação da mão-de-obra brasileira. Pela venda das passagens aéreas, elas recebem 9%.
A situação da nossa empresa, que trabalha especificamente com o agenciamento de dekasseguis, é difícil. Já chegamos, inclusive, a pensar em fechá-la temporariamente. Mas isso seria ruim para a nossa imagem. Então, enquanto estamos empatando as entradas com os custos, vamos tocando e mantendo as portas abertas, comenta Alex Nonomura, que abriu a filial da Tokio Tour em Londrina há dois anos. O duro é que ainda vai levar um bom tempo para a situação do Japão melhorar e voltarmos a ter oferta de emprego para brasileiros. A previsão é de que a crise comece a ser revertida somente a partir de agosto, na melhor das hipóteses.
Enquanto isto, os dekasseguis - que convivem no Brasil com uma taxa de desemprego de 7,4%, mais que o dobro da japonesa - terão que continuar adiando o sonho do emprego bem remunerado no País do Sol Nascente.





