Tire a conta da mesa
Coloque um sorriso no rosto
Seria muita avareza
Cobrar no dia 11 de agosto.
Foi cantando essas estrofes que um grupo de 25 estudantes de Direito da Universidade Estadual de Londrina recebeu a conta referente à comida e bebida que consumiram em um restaurante na noite de terça-feira.
Mas, a gerência do restaurante não entendeu a tradição do chamado ‘‘Dia da Pendura’’, instituído pelos estudantes para comemorar o aniversário da criação do primeiro curso de Direito do Brasil, há 171 anos, em Olinda (PE), e chamou a Polícia. O jantar só acabou na delegacia.
Mauro FrassonJoão José da Silva: críticasOs estudantes chegaram ao restaurante, no centro da Cidade, por volta das 20 horas. Alegaram que iriam comemorar o aniversário de uma amiga. A gerência desconfiou da possibilidade da pendura e pediu caução de R$ 100,00. Foi prontamente atendida.
Depois de quase duas horas comendo, bebendo e cantando, pediram a conta. Assim que o garçom apresentou a nota, solicitaram a presença do gerente. Um dos estudantes se levantou, fez um discurso de agradecimento e apresentou um ‘‘Diploma de Comerciante Emérito’, em reconhecimento à magnífica acolhida que nos foi proporcionada’’.
O gerente saiu furioso e retornou logo depois com uma faca na mão. ‘‘Ninguém vai sair daqui sem pagar a conta. Vocês estão correndo risco de vida’’, esbravejou o gerente. Imediatamente, um dos estudantes ‘‘sacou’’ o Código Penal e leu o artigo 147, que tipifica o crime de ameaça e prevê pena de detenção de um a seis meses, ou multa.
O gerente não se intimidou e chamou a Polícia. Foram mobilizadas sete viaturas da PM, para levar os estudantes para a delegacia. Também o advogado do restaurante, Marcos Vale, foi chamado. Os estudantes reagiram argumentando que já haviam pago a conta, ainda que parcialmente, e sofrido ameaça por parte do gerente.
O advogado, que é também professor de Direito, tentou convencer os estudantes de que o encaminhamento para a delegacia e a cobrança judicial representariam custos pelo menos 20 vezes maior, além do vexame de ser conduzido por um ‘‘camburão’’ e do risco de ‘‘sujar a ficha’’ e se arriscar a sequer se inscrever na Ordem dos Advogados do Brasil.
Os estudantes contra-argumentaram explicando que não estavam se recusando a pagar e que, mesmo se não pagassem, não se caracterizaria ilícito penal, ‘‘mas apenas cível’’. Pelo menos uma hora depois de muita conversa, o advogado do restaurante fez uma proposta de acordo. ‘‘A conta ficou em R$ 12,13 por estudante, mas a gerência aceita R$ 10,00 por cabeça.’’
Os estudantes recusaram imediatamente a proposta e contrapropuseram pagar R$ 5,00. Quando já estavam chegando a um consenso, alguém chegou com o boato de que outro grupo de estudantes teria saído de uma grande churrascaria do centro sem pagar a conta. O boato provocou novo alvoroço. Alguns estudantes queriam pagar. Outros, defendiam ‘‘a tradição’’.
Depois de mais algumas ‘‘rodadas de negociações’’, fecharam acordo em R$ 6,00. A maioria dos estudantes pagou e foi liberada. Dois deles, entretanto, se negaram a acertar a conta, preferindo ‘‘passear de camburão’’. Um comboio de carros e viaturas policiais rumou para o 1º Distrito Policial. Depois de mais uma tentativa de negociação, os ‘‘rebeldes’’ que queriam manter a tradição a qualquer custo foram convencidos de que ‘‘o crime não compensa’’ e decidiram pagar a conta.

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