Toda vez que algum jornal de Londrina mostra com alarde imagens de jacarés no Lago Igapó feitas por algum ouvinte, leitor ou telespectador, o empresário Eduardo Tomasetti ri sozinho. Ele garante ser um dos responsáveis pela presença dos répteis num dos mais conhecidos pontos turísticos de Londrina - e um dos protagonistas de uma história tão surreal que chega a ser quase inverossímil.
''Esses jacarés que o pessoal vem fotografando devem ser da quinta, sexta geração a partir dos primeiros que foram colocados no lago'', diz Tomasetti. Tudo teve início em 1979, quando o empresário, então com 19 anos, se mudou para Cuiabá (MT). No ano seguinte, ele foi ao Pantanal para uma pescaria com colegas da república onde morava. No local, eles encontraram filhotes de jacaré e não titubearam: pegaram quatro - três machos e uma fêmea.
''Fizemos na nossa sala uma cascatinha, com pedras e água desviada do encanamento, e os jacarés ficavam lá. E, como em toda república, tinha festa direto. Todo mundo que via os jacarés ficava encantado'', conta Tomasetti. ''Na época, não se falava tanto sobre preservação do ambiente, dos animais. Mas eu sempre fui um admirador da natureza. E nós tratávamos os jacarés direitinho''.
Entretanto, a brincadeira exótica começou a dar dor de cabeça para os rapazes da república logo depois: a empregada trazia para o trabalho uma filha pequena, que ficava cutucando os jacarés com um cabo de vassoura. ''Aquilo me preocupava, porque a criança não tinha noção do que estava fazendo, de que poderia machucar os animais, deixá-los nervosos. E os jacarés já estavam com quase um metro de comprimento. Decidimos tirá-los da república. Demos dois machos para um amigo que foi para a Argentina. O casal que restou foi entregue para o Ludovico Bonatto, de Londrina''.
Para serem levados para o Norte do Paraná, os dois jacarés foram acomodados num recipiente para acondicionar papel vegetal. Na rodoviária de Cuiabá, o pacote inusitado foi entregue a um amigo, Ricardo Caudugo. ''Ele foi avisado de última hora. Pedimos para levar o recipiente para o Bonatto, em Londrina, e ele perguntou: 'O que tem aqui dentro?'. Quando falamos a verdade, o Caudugo ficou apavorado. O recipiente foi colocado no porta-sacolas, em cima dos bancos dos passageiros. E lá foi o Caudugo, 18 horas acordado dentro do ônibus, com medo de que desse algum problema'', lembra Tomasetti, entre risadas.
Nos anos seguintes, Bonatto, funcionário da Universidade Estadual de Londrina (UEL), manteve os jacarés numa área com água no quintal da casa dele. Numa certa época, um dos jacarés ficou abatido. Bonatto levou o animal a uma clínica veterinária, onde estudantes recém-formados na área não souberam dizer qual seria o problema. ''O professor (Antônio) Vilela de Magalhães recomendou que o casal fosse solto no Lago Igapó 3. O Bonatto topou'', diz Tomasetti.
Nos meses seguintes, Bonatto visitou com frequência a região do lago, atrás de indícios de que os jacarés estavam bem. E as surpresas não tardaram: um ninho foi encontrado, meses depois um rapaz ''pescou'' filhotes, e nos anos posteriores fotos dos répteis tiradas por pessoas que percorriam as margens do Igapó comprovaram que o casal não só havia sobrevivido, como constituído família.
''Ou seja, aquele jacaré que estava passando mal era uma fêmea que estava grávida'', afirma Tomasetti, que voltou para Londrina em 88, casado. Bonatto ia ao lago levar restos de peixes para os jacarés; quando um dos répteis era capturado pelos Bombeiros, o funcionário da UEL ia à noite ao local para onde o animal havia sido levado e fazia o ''resgate''.
Em 1992, último ano da segunda administração de Antônio Belinati, Tomasetti, Bonatto e o professor de biologia Misael Rodrigues enviaram à prefeitura um projeto para transformar o Igapó 3 numa área de preservação ambiental, inclusive com fins turísticos. A Fundação Boticário chegou a assumir o custeio da obra, mas a idéia não foi adiante.
''Acho que o projeto pode ser retomado. Este parque seria excelente para a cidade e estimularia a educação ambiental, coisa de que a população anda precisando. Já mataram jacarés perto do lago'', argumenta Tomasetti. Infelizmente, dois dos protagonistas desta história não estão presentes para brigar pelo projeto: Bonatto se mudou para os Estados Unidos e Vilela faleceu. Tomasetti continua em Londrina, assim como Rodrigues, que neste mês está fora da cidade.
Enquanto isso, boa parte dos moradores do município segue ignorando esse passado e se maravilhando quando novas fotos dos jacarés do Igapó são divulgadas. ''É bom lembrar que são jacarés de papo-amarelo, inofensivos. Caso veja um, não precisa ter medo'', avisa Tomasetti.

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