Érika Pelegrino
De Londrina
Desde menina ela era solicitada pelos pais para auxiliar em todas as situações difíceis da família, inclusive as que diziam respeito aos quatro irmãos menores. ‘‘É uma coisa estranha. Desde que me conheço por gente estou envolvida em atividades que visam ajudar outras pessoas’’, afirma Izabel Escudero Bento, 45 anos.
Ela conta que na adolescência e início da juventude sempre desenvolveu trabalhos em favelas, cadeias, igrejas. Foi numa destas atividades voltadas para recuperação de drogados que ela conheceu o seu marido, que estava em fase de recuperação. Começaram a namorar e ficaram noivos.
Paralelamente ao atendimento a pessoas carentes, Izabel Bento sempre trabalhou. Mas as atividades voluntárias começaram a envolver de tal forma que aos 25 anos ela pediu demissão do emprego que tinha no Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) para dedicar-se em tempo integral ao que considerava sua vocação: ‘‘Ajudar as pessoas que necessitavam’’.
Apesar de estar noiva fez as malas e foi para Anápolis, em Goiás, para trabalhar em uma casa de recuperação de mulheres e adolescentes que utilizavam drogas. ‘‘Era um trabalho pioneiro e como eu mantinha contato por carta com eles, devido ao meu trabalho com drogados aqui em Londrina, quando fui convidada para ajudá-los não pensei duas vezes’’, lembra.
Um ano depois a mãe de Izabel Bento sofreu um derrame e morreu. O pai já tinha falecido quando ela tinha 12 anos. ‘‘Tive que voltar a Londrina para cuidar de meus quatro irmãos que ainda eram menores’’, conta. Na volta Izabel Bento casou com o noivo que já fazia o curso de enfermagem. Como não podia deixar de ser, foi solicitada para outro trabalho voluntário.
Ela foi convidada por um pastor para criar o Núcleo Social Evangélico de Londrina (Nuselon). Depois de dois anos, com o nascimento da primeira filha, Izabel Bento afastou-se um pouco dos trabalhos voluntários. ‘‘Mas continuei ajudando sempre que possível a minha comunidade. Só que tinha consciência que precisava dar atenção e cuidar bem dos meus filhos.’
Desde que voltou de Anápolis, Izabel Bento acalentava o sonho de criar em Londrina um serviço semelhante. Nos trabalhos que continuou realizando em igrejas, ela percebeu que na região não havia uma casa para atender adolescentes e mulheres dependentes de drogas.
Mas as obrigações com a família a impedia, temporariamente, de buscar formas de concretizar seu desejo. Foi em um de seus últimos trabalho em igreja que Izabel Bento afirma ter sentido que era o momento de finalmente arregaçar as mangas. Ela conta que tinha que fazer a triagem das pessoas atendidas para encaminhar aos serviços específicos.
‘‘Vi que para as adolescentes e mulheres que precisavam de atendimento para se recuperarem do uso de drogas não existia nenhum serviço na região.’ Com os filhos já criados, ela afirma que podia dedicar-se a esta tarefa inteiramente.
Há um ano criou o Recanto Maranata, no Conjunto Cafezal, (zona sul de Londrina), que atende desde meninas com 13 anos até mulheres de 30 anos. Hoje são 19 meninas de Londrina e até de outros estados, como de São Paulo. Muitas meninas que hoje moram no recanto vieram de Presidente Prudente. Duas delas estão grávidas. Uma vinda de Cotia (SP) há dois meses, ganhou bebê na última terça-feira.
Izabel Bento passa o tempo todo trabalhando na recuperação destas adolescentes e muitas vezes dorme no Recanto Maranata, embora tenha uma voluntária específica para esta função. A tarefa junto com as meninas é árdua. Muitas chegam revoltadas e na maioria das vezes vêm de famílias desestruturadas e não conhecem o que é afeto.
Mas este tipo de dificuldade não é problema para Izabel Bento. Ela afirma que adora estar com as meninas e ajudá-las a se recuperar. ‘‘É muito bom ver a evolução delas. Ver o estado em que chegam e como se recuperam depois de nove meses de tratamento é a maior compensação.’
Nem sempre a dedicação e o carinho de Izabel Bento surtem o efeito esperado. Algumas garotas acabam fugindo depois de poucos dias. ‘‘Quando isto acontece é muito doloroso, porque eu sei, eu estou vendo que a pessoa precisa de ajuda e que ela pode melhorar muito a vida dela. Mas a própria pessoa ainda não está pronta. Ela não vê, não aceita que precisa de ajuda. Ainda não é a hora dela, infelizmente.’
Em alguns casos, conta Izabel Bento, a pessoa percebe logo que fez uma ‘‘bobabem ao fugir’’. ‘‘Isto já aconteceu com três garotas que fugiram, quebraram a cara e voltaram. Hoje estão muito bem. Duas até já terminaram o tratamento e voltaram para casa.’
Neste trabalho, o que Izabel Bento realmente considera um problema é a questão financeira. ‘‘A falta de dinheiro é um peso. Muitas vezes estou trabalhando com as meninas e fico pensando nas contas que temos para pagar. ‘‘Se não fosse isso estariamos mais inteiras nas atividades com as meninas.’
Manter o Recanto custa em média R$ 1 mil por mês. Dinheiro que Izabel Bento e os voluntários do local levantam sozinhos. Sem o apoio de verba do Município, as promoções são a grande fonte de recurso e mesmo assim todo mês Izabel Bento tira dinheiro do bolso para completar o orçamento.
‘‘Às vezes falta dinheiro para pagar o aluguel, outras vezes para comprar gás, enfim sempre que precisa de alguma coisa e temos de onde tirar acabo pedindo para o meu marido que hoje é aposentado e ajuda bastante’’, afirma. Em média, Izabel Bento banca R$ 400,00 mensais dos custos do recanto.
A dedicação é total, mas ela não deixa de citar a importância do trabalho de toda a equipe voluntária que inclui psiquiatra, assistente social, dentista, ginecologista, pastores, entre outros. ‘‘Procuramos usar a saúde pública na maioria dos casos, porque as meninas precisam conhecer os procedimentos normais e saber que as coisas lá fora não são fáceis. Só em casos específicos solicitamos os médicos voluntários.’
Ela conta ainda com a ajuda de Maria Helena Ferrer, 52 anos, que a auxilia na arrecadação de recursos. ‘‘Temos uma equipe muito boa de voluntários.’ Diante de tantas dificuldades e uma vida inteira dedicada ao próximo, Izabel Bento tem uma explicação para o caminho que escolheu: ‘‘É um chamado de Deus. Fui convocada para ser missionária. Só pode ser isso’’.

PERFIL
Nome: Izabel Escudero Bento
Idade: 45 anos
Vocação: ajudar ao próximo
Trabalho atual: recuperação de jovens viciadas em drogas
Maior dificuldade: conseguir apoio financeiro para levar o trabalho adiante
Uma certeza: as dificuldades econômicas serão superadas

Izabel Escudero Bento, 45 anos, já estava acostumada desde criança a socorrer os irmãos e ajudar o pai e a mãe em tudo que pudesse. Para ela, ajudar é uma questão de vocação. Acredita ter nascido com esta missão e se considera realizada por ter seguido o seu destino. Quando adolescente já ajudava em favelas, presídios, movimentos de igrejas. Foi inclusive num destes trabalhos que conheceu um jovem que se recuperava do uso de drogas, com quem acabou casando-se. Levou tão a sério a sua vocação que aos 25 anos pediu demissão do emprego para dedicar-se em período integral ao trabalho voluntário. Hoje, depois de criar os filhos, está realizando com muitas dificuldades um desejo antigo: criar uma casa para atender adolescentes e mulheres viciadas em drogas.

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