Itamaraty registra 1.150 desaparecimentos
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de janeiro de 2009
Fernanda Mazzini <br> Reportagem Local e Agência Estado 
São Paulo - Beatriz e Eliana Almeida buscam há 20 anos pelo irmão que morava nos Estados Unidos. Tânia Vicentini foi àquele país atrás da filha que fazia intercâmbio. A ex-miss Brasil Taíza Thomsen avisou a Polícia Federal que estava em Londres e bem, mas a família continua sem saber seu real paradeiro. Miriam Rangui não entende por que o irmão que trabalha no Japão não faz contato. E Rubens Oleinski sentiu um aperto no peito quando achou a mochila do irmão que foi escalar um vulcão na Bolívia.
O estado de apreensão dessas famílias é comum a muitas outras que vivem a angústia de ter um parente desaparecido no exterior. O Ministério das Relações Exteriores (MRE) registrou 1.150 casos nos últimos cinco anos. Mas o próprio órgão reconhece que esse não é o número exato, uma vez que muitos parentes não relatam os sumiços e outros não avisam quando as pessoas são encontradas. Há também pessoas que não estão desaparecidas - simplesmente não querem contato com os familiares.
Se procurar um parente desaparecido é difícil, a busca fica ainda mais prejudicada quando se trata de um outro país. Entre os obstáculos enfrentados estão a distância, o alto custo para seguir as investigações de perto, o idioma e a burocracia.
Os países que têm as maiores comunidades de brasileiros no exterior são os que concentram a maior parte dos desaparecimentos. De acordo com uma estimativa do ano passado do MRE até 1,5 milhão de brasileiros podem estar vivendo atualmente nos Estados Unidos - os dados não são precisos, pois muitos estão ilegais.
A segunda maior colônia está no Paraguai, com cerca de 500 mil. Depois, vem o Japão, com 330 mil. Em relação aos desaparecidos, no entanto, o Japão lidera em números de casos. O MRE registrou 45 casos de sumiços de brasileiros no país em 2008.
Segundo Estela Okabayaski Fuzii, diretora do Departamento de Informação e Apoio ao Dekassegui da Aliança Cultural Brasil-Japão, em Londrina, há algumas particularidades entre os desaparecidos. Há casos de trabalhadores presos ou que constituíram outra família e, por isso, preferem cortar laços com os familiares no Brasil.
''Muitos dos desaparecidos estão em prisões e a família não sabe e outros que, por vergonha, preferem não comunicar'', afirma Estela. Segundo ela, a maioria dos delitos praticados por dekasseguis é de furtos e roubos. Dados de 2007 mostram que naquele ano 930 brasileiros estavam presos no Japão, dos quais 496 cumpriam pena em penitenciárias. Outros 94 trabalhadores eram considerados foragidos, uma vez que voltaram ao Brasil mesmo sem ter quitado sua dívida com a Justiça. Há casos também de dekasseguis que praticaram algum delito e que preferem mudar de cidade e de trabalho para não dar satisfações aos familiares.
No caso dos dekasseguis que formam outra família - cerca de 70% deles são homens - ainda há outro problema. A legislação japonesa determina que a pessoa, quando encontrada, autorize a divulgação do seu novo endereço. Em caso negativo, a família continua a acreditar no desaparecimento do parente. Entre outros registros há casos de suicídio e de dekasseguis que foram aliciados pelo crime organizado japonês, conhecido como a máfia Yakuza.
Crise
Em tempos de crise econômica global, a tendência é que os números de desaparecidos aumentem ainda mais no Japão. ''Muitos não querem voltar porque acham que irão conseguir algum outro emprego enquanto alguns não têm dinheiro para voltar. Por isso a estimativa é que as ocorrências de crimes aumentem ainda mais, inclusive, com saques em supermercados'', comenta Estela. Muitos trabalhadores demitidos já estariam em dificuldades, sem habitação e sem alimentos.
Ela acrescenta que já está em discussão no parlamento japonês um projeto que prevê ajuda financeira aos dekasseguis para que estes consigam retornar ao Brasil. ''Acredito que falta alguma ajuda do governo brasileiro. É hora de ajudar estes trabalhadores que mandaram muito dinheiro ao Brasil nestes últimos anos'', avalia.


