Itaipu define reassentamento de índios
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sábado, 07 de dezembro de 1996
Montezuma Cruz<br>Sucursal de Foz do Iguaçu 
Catorze anos depois do dilúvio em suas terras, provocado pela formação do lago de Itaipu, os índios avás-guarani serão assentados em 1.440 hectares, entre os rios São Domingos e São Francisco, nos municípios de Ramilândia e Diamante do Oeste. Não há data certa para a mudança, mas ela deverá ocorrer até o início de janeiro, após a retirada do gado pertencente ao dono e a demarcação da área.
O local tem 30% de mata nativa. Desde a última semana os líderes da tribo acompanham os serviços preliminares de topografia, acompanhados por funcionários da Itaipu e pelo antropólogo Rubem Thomás Almeida, contratado pela Binacional.
Não foi revelado o valor pago pelas terras. Para lá irão 340 índios que ainda se encontram no antigo território, em Jacutinga-Ocoí (município de São Miguel do Iguaçu), a cerca de 60 quilômetros de Foz do Iguaçu, e outros 90 acampados há um ano e meio na área de Paraná Porã (622,9 ha), perto do Refúgio Biológico Bela Vista, da Itaipu.
Reunidos quarta-feira com o diretor de Coordenação da Itaipu, Brazílio de Araújo Neto, os caciques Inocêncio Acosta e Manequinho Werá mostraram-se felizes com a notícia. Estava fechado o negócio com o fazendeiro, de nome não revelado.
Em Ocoí, homens, mulheres e crianças reuniram-se com o representante do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), órgão da linha 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Jeferson Borges. Eles estão ansiosos em saber quando irão de verdade para a nova área, disse Borges. Eles pediram ajuda à Itaipu para fazer as mudanças e querem o solo preparado. Vão plantar várias lavouras.
Miséria A história dos avás-guarani é marcada pela resistência e resignação. Para apressar a sua saída, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) incendiou suas choças em 1982. Muitos foram para as ruas de São Miguel pedir esmolas e revirar o lixo. Outros morreram de doenças intestinais e infecto-contagiosas.
Pior mesmo foi a incerteza branca sobre critérios de etnia. Naquela época, eles chegaram a ser considerados paraguaios e sofreram ameaças de extradição para o vizinho país. Em 1984, o antropólogo Edgar Carvalho assinou um laudo constatando que os avás-guarani formavam um subgrupo dos avás-chiripá.
Em 95, assessorado pelo diretor do Centro de Estudos Indigenista do Paraguai, o padre jesuíta, antropólogo e historiador Bartomeu Meliá, o antropólogo Rubem Thomás Almeida relatou que o histórico povo guarani divide-se em três grupos: mbyá, ¤andeva e kaiowá.
Os índios do Ocoí, explicou ele, tinha um território com pesca, mata, campo e roça, que ía de Foz a Toledo e Guaíra, explicou. Em 20 anos houve muitos equívocos que viraram verdades sobre esses índios. Diziam que os guarani eram nômades, acrescentou
Refúgio A demora e a indefinição sobre o assentamento levou os índios ao protesto. Em 95 eles entraram em Paraná Porã e lá se encontram até hoje. Mesmo precisando, não desmataram um só metro cúbico.
Eles queriam a devolução dos seus 1,5 mil ha cobertos pelas águas. A espera não foi fácil. Durante esse período, crianças e adultos foram picados várias vezes por cobras venenosas.
No final do ano passado, o cacique Silvino Vaz queixou-se da situação. No entanto, a Funai só dispunha de um funcionário para garantir-lhes água e alimentação. De lá para cá, a via-crucis dos avás foi aumentando.
Os índios que ficaram na antiga reserva de Ocoí, em São Miguel do Iguaçu (50 quilômetros ao norte de Foz) estão até hoje bebendo água contaminada por resíduos de agrotóxicos de lavouras próximas. Ouviram promessas da Itaipu e da Funai para o encanamento de água potável, mas nem poço eles têm.


