Itaipu dá origem aos sem-terra
Ney de SouzaMiguel Sávio no Lago de Itaipu: ex-líder do Mastro promoveu a primeira invasão de terra no EstadoAlém da mais fabulosa produção de energia elétrica do planeta, Itaipu gerou um outro fenômeno: o surgimento dos trabalhadores rurais sem-terra. Esse movimento, reunindo meeiros e empregados de proprietários rurais das áreas que foram alagadas pelo reservatório da usina, nasceu em agosto de 1980, em São Miguel do Iguaçu (40 quilômetros a nordeste de Foz do Iguaçu).
A Folha foi o jornal que mais acompanhou a nossa luta, relembra Miguel Isloar Sávio, criador do Movimento dos Agricultores Sem Terra do Oeste do Paraná (Mastro) e atual secretário de Bem-Estar Social da Prefeitura de São Miguel do Iguaçu. Além de documentar o surgimento de um movimento social organizado que, uma década depois, se tornaria o mais atuante do País, a Folha saiu na frente ao registrar a primeira ação prática do Mastro: a primeira invasão organizada de terra no Paraná.
Foi em 1983, quando 800 famílias ocuparam a Fazenda Mineira, em São Miguel do Iguaçu. A Folha chegou antes que o rádio, conta Sávio, hoje com 51 anos. Hoje, a área é um bem-sucedido assentamento de trabalhadores rurais, merecidamente batizado de Assentamento Sávio.
O surgimento do Mastro motivou a organização de outros grupos de sem-terra pelo Paraná e o Rio Rio Grande - Estados onde a questão da distribuição fundiária era mais evidente. O Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) foi fundado em 1980 - poucos meses depois da criação do Mastro -, no Rio Grande do Sul. Em seguida, o MST começou a se espalhar pelo País inteiro.
Outra contribuição do Mastro foi o estímulo para a organização dos agricultores do Extremo-Oeste do Paraná que possuíam terra, mas estavam sendo expulsos dela pela formação do lago de Itaipu. Esse grupo, formado por cerca de 8 mil famílias, criou o Movimento Justiça e Terra, que reivindicava urgência nas desapropriações e pagamento justo nas indenizações.
Durante 54 dias, o Justiça e Terra manteve um acampamento no trevo da BR-277 que dava acesso ao canteiro de obras da usina, em Foz do Iguaçu. O acampamento só foi desfeito quando a binacional cedeu e atendeu as reivindicações. Ao todo, Itaipu desalojou cerca de 50 mil pessoas, em 1,8 mil quilômetros quadrados de área, nos territórios brasileiro e paraguaio.
A maior parte dos agricultores brasileiros indenizados emigrou para o Paraguai, onde fez surgir o fenômemo dos brasiguaios, amplamente documentado pela Folha. Os ex-meeiros e empregados de fazenda - que formavam um grupo de aproximadamente 800 famílias - foram divididos em assentamentos no Paraná, em Minas Gerais e até no Acre. (Valmir Denardin)





