Israel decide futuro de garoto brasileiro
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segunda-feira, 23 de março de 1998
Paulo Pegoraro 
Edson MazzettoRelatoO pai adotivo José Darci Bezerra (à esquerda), com o advogado Carlos Cezário e o deputado Hermes ParcianelloA Justiça de Israel decidirá no dia 1º de abril, em Telaviv, capital daquele país do Oriente Médio, o pedido de repatriação do menino Lucas Lenon Sena, hoje com 8 anos. Ele foi raptado em janeiro de 1995, em Cascavel, pela mãe biológica, Angelita de Souza Sena, 25 anos. O caso é um dos mais conturbados entre os que envolvem crianças retiradas ilegalmente do Brasil e é motivo de luta permanente da família adotiva para reaver a criança.
O pai adotivo, José Darci Bezerra, 42 anos, comerciante do ramo de secos e molhados, apresentou um relato do caso ontem, em Cascavel. Ele estava acompanhado pelo advogado Carlos Cezário e pelo deputado federal Hermes Parcianello (PMDB), que faz gestões em Brasília, inclusive no Ministério de Relações Exteriores para buscar soluções. Pai, advogado e político querem obter repercussão do caso através dos meios de comunicação, para tentar apoio federal para trazer o menino de volta.
Angelita Sena é filha de uma irmã de Ana Maria Bezerra, 42 anos, esposa de José Darci. Todos residiam em Cascavel quando Lucas nasceu. O parto foi realizado em um hospital de Campo Mourão, porque Angelita teria sido rejeitada pela família, por ser solteira, e também por isso doou o bebê aos 35 dias de vida à tia, Ana Maria. Conforme o relato de Bezerra, Angelita se envolveu com um homem identificado como Moshe Sarussi, israelense que estaria chefiando o tráfico de mulheres brasileiras, mantidas em boates e vendidas nas fronteiras de Israel com Egito e Jordânia.
Angelita passou a lutar pelo filho, porém a família Bezerra obteve na Justiça de Cascavel a guarda e responsabilidade de Lucas. À Angelita foi concedido apenas o direito de permanecer com o menino um mês a cada ano. No início de 95, Angelita obteve uma declaração do nascimento do menino e com o documento fez o passaporte de Lucas para viajar a Israel, onde ela já havia conseguido a cidadania. Houve declaradamente um rapto, afirma o advogado Carlos Cezário.
A Justiça de Cascavel acabou expedindo uma carta rogatória para busca e apreensão do menino, encaminhada a Israel pela família Bezerra, mas o documento não foi reconhecido, porque não há acordo com o Brasil para esta finalidade. Posteriormente, a ordem judicial foi transformada em pedido de colaboração, que foi aceito, definindo-se para 1º de abril a decisão por parte da Vara de Família de Tel Aviv, com respaldo da Suprema Corte daquele país.
Paralelamente, a polícia israelense investiga atividades de Angelita de Souza Sena e Moshe Sarussi. Eles estão diretamente envolvidos com o tráfico de mulheres brasileiras, afirma o advogado Carlos Cezário. Segundo ele, Moshe é ex-companheiro de Dirce Moranti, que já esteve presa em Cianorte (Norte do Paraná) em 95 acusada também de tráfico de mulheres e hoje está em Israel.
José Darci Bezerra, a esposa e três filhas estão há três anos em Santa Catarina. A família diz ter recebido ameaças quando morava em Cascavel e não revela o nome da cidade onde mora atualmente. Temos vivido em permanente tensão, com o desgaste da espera de termos Lucas de volta, diz Bezerra.


