‘‘Esta sucessão de soterramentos é absurda e inadmissível. A partir de agora, adotaremos uma nova atitude: passaremos a denunciar à Polícia Civil, requerendo a abertura de inquérito, todas as situações irregulares que gerem insegurança aos operários no trabalho.’’ Esta foi a reação do presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Londrina, Denilson Pestana da Costa, ao saber ontem do terceiro soterramento em menos de um mês na cidade.
Segundo ele, a diretoria da entidade avaliou que apenas a negociação com o sindicato patronal e as denúncias de irregularidades à Subdelegacia do Ministério do Trabalho não têm sido suficientes para evitar os acidentes no setor. Ele explica que as denúncias preventivas à polícia, com o objetivo de evitar novas mortes de operários, serão baseadas no artigo 132 do Código Penal, que prevê ser crime colocar em risco a saúde e a vida de outras pessoas. ‘‘Todo o processo educativo e conscientizador dos riscos de acidentes de trabalho e da necessidade das medidas preventivas, desenvolvido nos últimos dez anos em conjunto com o sindicato patronal, foi importante e cumpriu uma etapa, mas não está sendo mais suficiente para evitar mortes.’’
Pestana lembra que a construção civil de Londrina passou os últimos três anos sem um único acidente fatal. ‘‘A questão da segurança está bem encaminhada nas grandes e médias construtoras, onde as condições de trabalho são satisfatórias. O problema começou a surgir nas pequenas empresas. Nas cerca de 100 fiscalizações que realizamos neste ano, todas as empresas apresentavam deficiências nos itens básicos de segurança.’’
O problema se agrava, diz ele, quando trata-se de serviços prestados por trabalhadores não qualificados. ‘‘O desemprego é grande, e os ex-operários de empresas necessitam de ‘bicos’ para sobreviver. As pessoas, para fazer economia, contratam sempre os mais baratos, que não dispõem de equipamentos de segurança. Daí para o acidente, é um caminho muito curto.’’
Os dois soterramentos anteriores ocorridos em Londrina resultaram em mortes. O primeiro ocorreu dia 22 de janeiro, quando o operário Sebastião Ladislau, 27 anos, morreu asfixiado numa valeta das obras de ampliação da rede de esgoto da Sanepar. Ele trabalhava para a Construtora Carreira, de Campinas (SP). Em acordo negociado pelo Sindicato dos Trabalhadores, a empresa pagou R$ 30 mil de indenização para a família de Ladislau.
O segundo aconteceu no dia 26 de janeiro, na Fazenda Itajubá (zona sul) e matou Edinei Ferreira dos Santos, 17 anos. Ele trabalhava na propriedade de Cantilho Vilar, construindo uma ponte de concreto com outros três operários autônomos. Neste caso, ainda não houve acordo para indenização da família.
Laudos do Instituto de Criminalística da Polícia Civil, divulgados no início do mês, concluíram que as duas obras estavam irregulares em relação às normas mínimas de segurança exigidas pelo Ministério do Trabalho. A Polícia abriu inquéritos para investigar as circunstâncias dos acidentes e apurar responsáveis pelas duas mortes.
O primeiro inquérito está sendo presidido pelo delegado do 4º Distrito Policial (DP), Joaquim Antonio de Melo. O segundo, está sob a responsabilidade da delegada Valdete Testoni, do 6º DP.

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