Irmãs separadas há 60 anos se reencontram virtualmente

Uma é moradora de Cambé e a outra vive em Itatiaia (RJ) e aguardam ansiosas o momento de poderem se abraçar novamente

Laís Taine - Grupo Folha
Laís Taine - Grupo Folha

Durante a pandemia do novo coronavírus, muitas famílias se viram angustiadas pelo distanciamento social. Não abraçar, beijar, tocar parte o coração do brasileiro afetuoso, mas duas irmãs sentem esse vazio há 60 anos. Leonilda Teixeira de Paula Picolli, 82, vive em Cambé (Região Metropolitana de Londrina), e Eloísa de Paula Laranjeira, 62, em Itatiaia, no Rio de Janeiro. Elas foram separadas na infância e só se reencontraram de forma virtual agora, no meio da crise da doença. Como muitas famílias separadas pelo isolamento, elas aguardam ansiosas o momento de poderem se abraçar novamente. 


Leonilda Teixeira de Paula Picolli: "Quando nos falamos foi uma emoção, porque eu cuidava dela quando era pequena"
Leonilda Teixeira de Paula Picolli: "Quando nos falamos foi uma emoção, porque eu cuidava dela quando era pequena" | Acervo Pessoal
 

“Meu coração quase saiu pela boca, foi muita felicidade. Pra mim, eu era filha única, não sabia que tinha irmãos, pensei que era só eu e meus pais”, menciona Eloísa, sobre a descoberta da irmã. Ela conta que foi para um orfanato em Curitiba aos 10 anos e que não se recorda do que houve antes disso. Aos 18, foi adotada por uma família do Rio de Janeiro, onde ela se casou e continuou a vida. Nesse tempo todo, Eloísa procurou informações sobre a família, mas não conseguia respostas. 




“Quando nos falamos foi muito bom, uma emoção, porque eu cuidava dela quando ela era pequena. Nossa mãe morreu quando ela tinha 9 meses, eu fui mãe dela por um tempo. Meu pai se casou de novo, eu fui trabalhar em Paranaguá e, quando eu voltei, fiquei sabendo que a madrinha dela havia levado ela embora”, conta Leonilda. Ainda há a irmã do meio, Maria Helena, de aproximadamente 72 anos, da qual não se tem notícias. “A saudade era tanta, eu sempre me emocionava rezando, pedindo para Deus para que eu encontrasse minhas irmãs”, acrescenta. 


O reencontro só foi possível porque a sobrinha do marido de Eloísa, Vanessa Sampaio Salles, 35, decidiu ajudar a tia. “Morei com eles no Rio de Janeiro e vim para Curitiba, pensei em me aprofundar na história, porque eu não estava longe da cidade onde ela nasceu, achei mais fácil para me deslocar”, conta. A cidade do início dessa história é Palmeira, que fica a 85 km da capital paranaense. 

Eloísa de Paula Laranjeira: "Foi muita felicidade, não sabia que tinha irmãos"
Eloísa de Paula Laranjeira: "Foi muita felicidade, não sabia que tinha irmãos" | Arquivo Pessoal
 

Salles começou a pesquisar na internet pelo sobrenome e descobriu a família do segundo casamento do pai da tia. No ano passado, Eloísa foi até a cidade visitar os irmãos por parte de pai. “A tia Elo tem diabetes, amputou o pé e meu tio é um senhor com problema de saúde, então eles têm gasto alto. O primeiro encontro eu tentei por meio de rádio levantar dinheiro, eles fizeram empréstimo que estão pagando até hoje. Eles vieram, mas ficaram com dívida”, relata a sobrinha. 


Depois disso, a sobrinha conseguiu encontrar, por meio da internet, a família de Leonilda, que é irmã do mesmo pai e da mãe da tia. “Liguei para a minha tia e falei: ‘tenho uma notícia para te dar. Encontrei a sua irmã’. Foi uma chorando de um lado, outra chorando do outro”, conta rindo. Para Eloísa, que mal sabia que tinha irmãos, descobrir sua história veio como conforto. “Eu achava que ia morrer sem conhecer ninguém. A cabeça da gente fica muito triste, todo mundo com família e eu sem, a gente pensa muita coisa, era difícil para mim”, declara. 


DEPOIS DA PANDEMIA

Para a irmã mais velha, o reencontro é a realização de um sonho. “Eu me sentia só, mas eu coloco o tempo na mão de Deus e confio nele para viver até conseguir me encontrar com ela. Eu concordo com tudo que Deus faz”, menciona. Para o filho, José Picolli, que articula os encontros por videochamada, realizar o sonho da mãe aos 82 anos também é gratificante. “Eu também procurava, ela sempre teve vontade de saber se as irmãs estavam vivas. Foi emocionante, quando a Vanessa entrou em contato comigo, era um domingo e foi um domingo muito feliz”, menciona. 


A expectativa agora é esperar a pandemia passar para que as duas se vejam presencialmente. “Assim que der, se Deus quiser, e essa pandemia passar, nós vamos reencontrar a família toda, é um projeto que estamos tentando organizar”, comenta o filho. Desejo de Eloísa, que tenta manter contato frequente com ajuda da tecnologia. “Por telefone não tem como conversar muito. Estou na expectativa, ligar não é a mesma sensação de estar perto, dar abraço, é diferente de poder conversar de perto”, comenta. 




VOLUNTÁRIA

Salles se empolgou com o trabalho e agora deseja atuar como voluntária na aproximação de pessoas. Além da tia, ela já reuniu mais duas famílias. “Deus me deu uma missão e para mim está sendo muito bom, queria mais tempo para me aperfeiçoar nessa parte de ter os contatos para busca”, revela. Em tempos de pandemia, valoriza-se ainda mais a importância da presença daqueles que ficaram anos sem rever a família. “Eu sinto uma emoção enorme. Eu me coloco no lugar das pessoas, como deve ser ruim saber que tem família e não saber onde está, como está, nem chegar perto”, defende. Como se tivessem vivido 120 pandemias, eles tentam reorganizar o encontro para que as irmãs terminem, finalmente, o distanciamento de 60 anos.

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