Irmãos se reencontram em Londrina depois de 56 anos
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sábado, 21 de dezembro de 1996
Apolo Theodoro 
Eles eram em seis irmãos, quatro mulheres e dois homens. Moravam com os pais na cidade de Cruz Alta, na região das Missões, Noroeste do Rio Grande do Sul. Quando a mãe morreu, todos ainda muito crianças, Alfredo tinha 8 anos; Maria Emília, 4. O pai, desnorteado, sem saber o que fazer com aquela criançada, distribuiu um pra cada canto e botou o pé na estrada. Os dois, Alfredo e Maria Emília, foram entregues à guarda de um padrinho do menino, que os criou até a idade adulta.
Em 1940, Alfredo, 22 anos, se casou. Depois desse dia, ele e a irmã nunca mais se viram. Isso, claro, até anteontem quando, depois de 56 anos distantes um do outro, Alfredo Freitas da Luz e Maria Emília Stadler, ele com 79 anos e ela com 75, se reencontraram na casa do filho de Maria Emília. Não é preciso dizer que a conversa foi até de madrugada.
Tão prolongada separação pode parecer exagerada para quem não conhece a história, ainda mais considerando que a pequena Cruz Alta está logo ali. Acontece que Maria Emília temia reencontrar seus familiares e ser repreendida por eles, por ter saído de Cruz Alta sem avisar ninguém e nunca mais ter aparecido.
Emília contou que saiu de Cruz Alta e foi para Santa Maria, também no Rio Grande do Sul, onde trabalhou de secretária. Lá, por volta de 1945, conheceu um caixeiro-viajante de perfumaria de nome esquisito - Arthalides Rodrigues Stadler - mas de lábia afiada e se engraçou por ele.
E ele não sossegou enquanto não dobrou a amada para vir com ele para uma tal de Londrina, começar vida nova. Ela não resistiu aos apelos do namorado e veio embora. Era o ano de 1946. Todo viajante é bom de lábia, e ele, ainda por cima, era bonitão também. Me convidou, falou vamos embora comigo pro Paraná? e eu vim. Quando chegamos aqui nos casamos.
Davi Roberto Stadler, filho de Emília, foi o responsável pelo reencontro. Vendo o sofrimento da mãe, Davi conta que, escondido dela, conseguiu manter contato com um irmão de criação do tio, num telefone de um ponto de táxi em Cruz Alta, em 1975. Em vão.
Mas o tempo foi passando e a saudade fustigando no peito de Maria Emília. Tinha dia que eu deitava na cama, passava a noite inteira pensando na minha família lá no Rio Grande e, quando via, o dia tava clareando, recorda Emília. Um dia, num churrasco na casa do filho, ela tomou uns goles de vinho a mais e abriu o coração. Chorou. O filho sentiu que era hora de tomar uma atitude firme.
Em novembro último, depois de inúmeros telefonemas, foi feito o primeiro contato com Oto Neuci Sampaio, que também havia sido criado pelo mesmo casal que criou os dois irmãos. Com Oto, Davi chegou a Clóvis, um dos seis filhos de Alfredo. E os primos, que até então não existiam um para o outro, conversaram pela primeira vez e, muito emocionados, marcaram para o dia seguinte o encontro dos irmãos.
Foi aquela choradeira no telefone. Ela se emocionou muito. Chorou tanto que eu também acabei chorando, conta Alfredo, feliz da vida, puxando a irmã para junto de si. Emília diz que depois do telefonema com o irmão se fechou em seu quarto e,ouvindo música, chorou copiosamente.
Os dois irmãos, ambos viúvos, estão se curtindo muito. Pensei que ia chegar um velhinho apoiado numa muleta e olha só como ele está forte, elogia Emília. Admirei a forma que ela está. Ela tem muito talento, devolve Alfredo que, como a irmã, sofria com a separação.
A gente solito se recorda de muitas coisas. À noite, quando deitava, sempre vinha a Maria Emília na minha idéia, ela e os outros irmãos, mas não podia fazer nada, não sabia onde estavam, comenta Alfredo. Os dois prometem partir para outra dura tarefa: encontrar, se ainda estiverem vivas, as irmãs - o irmão mais velho já faleceu - que estão espalhadas pelo mundo.


