Robson Santos se cadastrou como doador de medula óssea em 2015, após ver uma campanha nas redes sociais
Robson Santos se cadastrou como doador de medula óssea em 2015, após ver uma campanha nas redes sociais | Foto: Marcos Zanutto



O repositor de produtos hortifruti Robson Carlos Santos, 24, mora em Londrina, a 2.300 km da estudante do terceiro ano do ensino fundamental Micaele Lorrana Santos, 11, que reside em Salvador (BA). Mesmo sem se conhecerem, Santos salvou a vida da jovem por ter doado sua medula óssea. A costureira Naiane Bárbara dos Santos conta que desde os três anos de idade sua filha Micaele apresenta problemas de saúde. Depois de sete anos de investigação ela foi diagnosticada com MSD (Síndrome Mielodisplásica), que pode progredir para uma leucemia. "Os tratamentos já não estavam tendo resposta. Ela já estava há sete anos em tratamento e não respondia mais aos medicamentos", destacou.

Santos se cadastrou como doador de medula óssea em 2015, após ver uma campanha nas redes sociais. "Fui ao HU ( Hospital Universitário) para fazer o cadastro. Em 2016 me ligaram do Rio de janeiro e pediram para que eu fizesse exames naquela cidade. Fiz um exame e três meses depois pediram para que eu retornasse ao Rio para realizar mais exames. Constataram que eu era compatível com uma pessoa. Fiz a punção do osso do quadril. Não senti dor; é como se eu tivesse caído no chão e sentisse um incômodo por três dias. Tomei analgésicos", relatou.

"Como eu fui um doador não aparentado, não podia conhecer quem seria o receptor por 18 meses. No começo de novembro deste ano fui conhecer a receptora da medula. Como ela tinha de retornar para Curitiba a cada seis meses, em uma dessas oportunidades o Instituto a União Traz a Cura (de Curitiba) bancou a minha passagem para ir conhecê-la na capital paranaense", contou o jovem londrinense.

O encontro foi marcado por muito choro. Primeiro, Micaele não conseguia falar de tanto chorar. Depois de se recuperar, foi a vez de Robson perder as palavras em meio as lágrimas. "Os dois só conseguiram conversar por telefone quando ele já estava retornando a Londrina. Hoje eles se conversam diariamente. Viraram irmãos", afirmou Naiane.

Robson Carlos Santos, Micaele Lorrana e a sua mãe Naiane Bárbara dos Santos se encontraram em novembro, em Curitiba
Robson Carlos Santos, Micaele Lorrana e a sua mãe Naiane Bárbara dos Santos se encontraram em novembro, em Curitiba | Foto: HC/Divulgação



DISPONIBILIDADE
O médico hematologista pediátrico Lisandro Lima Ribeiro, do HC (Hospital de Clínicas) da UFPR (Universidade Federal do Paraná), que participou do transplante, destacou que o encontro foi um ato muito bonito de ambos. "Dele por ter doado a medula e salvado a vida de uma pessoa que nem conhecia. Dela por ter tido a iniciativa de querer conhecer o doador. A chance de encontrar um doador que não é parente não é tão grande. O Brasil possui o terceiro maior registro de doadores no mundo, mas considerando a nossa população poderia ser segundo lugar tranquilamente", destacou.

O hematologista explicou que existem duas maneiras de realizar o transplante de medula óssea: por células tronco hematopoietica ou através de sangue periférico. "Pela medula óssea, o doador é levado ao centro cirúrgico, é feito um pequeno furo no osso do quadril, retira medula óssea e ela é armazenada em uma bolsa, que é recebido como se fosse uma transfusão de sangue. A outra maneira é pelo sangue periférico. O doador recebe medicação que faz com que a célula tronco saia da medula e uma máquina filtra essas células tronco, que depois são injetadas na corrente sanguínea do receptor e encontram o caminho da medula por conta própria", relatou.

Segundo o especialista, desde 2008, quando não se consegue doador 100% compatível, é realizado transplante utilizando metade compatível. "Essa técnica é conhecida como transplante haploidêntico. Com isso, a disponibilidade aumentou ainda mais. Os resultados estão sendo equivalentes aos dos 100% compatíveis", destacou.

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'Avaliação do Paraná é boa'

O número de doadores efetivos, aqueles que resultam na doação e utilização dos órgãos por milhão de população (pmp), é o indicador universalmente utilizado e mais correto para medir a quantas andam os transplantes. Esse índice, no Paraná, atualmente é de 45 pmp, incluindo doadores vivos e falecidos. "Hoje a avaliação do Paraná é boa. O Estado está bem organizado e estruturado, tanto pela capacitação nos hospitais para atendimento ao paciente, pelo atendimento à família que confirmou óbito e também pela entrevista familiar. O Paraná também está organizado no transporte logístico, tanto de equipes como no de órgãos", destacou Edi Gláucia Repula, assistente social da Central Estadual de Transplantes e coordenadora da OPO Curitiba (Organização de Procura de Órgãos para Transplantes).

Para se ter uma ideia da evolução, em 2010 esse número era de 8,7 pmp. "Ano a ano esse número foi crescendo. Foi feito um trabalho de organização e hoje, quando entra uma notificação, já entramos em contato com as comissões do hospital para ver como está o cuidado com a família e o paciente. A central de transplantes possui médico 24 horas para conversar com o médico que está com o potencial doador para orientar a manutenção de potencial", destacou Repula.

Ela explicou que a família se dispõe a doar quando recebe um bom atendimento médico hospitalar. "Desde que seja proporcionada segurança para a família de que foi feito de tudo para salvar o paciente, mas que infelizmente isso não foi possível, a família doa. É preciso explicar sobre o diagnóstico e o tratamento realizado e esclarecer todas a dúvidas para não deixar a família desamparada. É preciso uma equipe para acolher essa família", expôs.

Repula ressaltou que, ao entrar para a lista de espera, o receptor recebe um número pelo qual pode se certificar se o seu cadastro está ativo, embora não consiga acompanhar a posição exata em que está na fila. "Seguimos à risca o que está na legislação, de respeitar a fila de espera para o transplante. Quando não tem receptor no Estado, esse órgão pode ser ofertado para o sistema nacional, que vai ver onde tem algum receptor compatível. Como há um tempo viável de transporte do órgão, o Paraná está mais ligado aos estados do Sul (Santa Catarina e Rio Grande do Sul), São Paulo e ao Distrito Federal, pois são regiões em que a aeronave consegue transportar e chegar a tempo para realizar o transplante", explicou a assistente social.

Sobre a doação em vida, Repulo explicou que todo transplante intervivo passa pela Central Estadual de Transplantes, que confere a documentação prevista em lei. "O não parentado vai para um juiz e só ele pode dar o parecer se transplanta ou não, seja no intervivo ou doador falecido, conforme determina a Lei nº 9734/1997, pois a central só pode liberar diretamente se a pessoa tiver grau de parentesco até o quarto grau", explicou.

Atualmente, o Paraná possui 1.332 pacientes na lista de espera somente de rim, dos quais 974 são ativos e os demais semiativos. Semiativo é o paciente que não está bom clinicamente para o transplante naquele momento, ou aquele que não quer ser doador ou não aparece para exames, mas pode aparecer. Na fila do transplante para o fígado são 149 ativos - se somados aos semiativos, esse número pode chegar a 192. "Para o coração a situação é diferente, porque é difícil ter um órgão compatível e viável, pois a idade máxima é de 50 anos e são avaliados o tempo de internamento e a medicação que usa. Atualmente temos 22 pacientes nessa fila. Para pacientes com diabetes, que precisam transplantar o pâncreas e o rim juntos, também são 22 pacientes na fila de espera. Já para transplantes de córnea a fila está zerada. O Paraná ainda não realiza transplantes de pulmão", destacou.

Ela observou que um doador pode salvar a vida de sete a oito pessoas. "Se doar tecidos pode ajudar de 15 a 20 pessoas, porque existem doações de ossos, de pele e de córnea. Caso haja dúvidas em relação ao processo de doação, a pessoa pode ligar para (41) 3304-1922. No site da Secretaria de Estado da Saúde (http://www.saude.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=2929) também é possível obter informações.

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