Uma londrinense de 27 anos e apenas 45 quilos - bem distribuídos em 1,60m de altura -, anda fazendo na Cidade o que muito machão típico brasileiro não admite nem em conversa de botequim: domar com chicote e banquinho seis feras africanas, cada uma com quase 200 quilos de peso. Tudo isso acontece no picadeiro do Circo Nazionale D‘Itália Orlando Orfei, que está instalado há duas semanas ao lado do Terminal Urbano, em Londrina.
Filha única de um domador holandês com uma trapezista, Irma Keszy Guranyi nasceu em 1971 na Santa Casa de Londrina, quando o mesmo circo Orlando Orfei passava pela Cidade fazendo apresentações. Hoje, quase três décadas depois, ela está de volta à terra natal desempenhando a mesma função que o pai exercia até pouco tempo. ‘‘Fui a primeira criança a nascer no Orlando Orfei na América do Sul’’, diz. ‘‘E foi aqui, em Londrina. Por isso essa cidade, para mim, é especial.’
Dorico da SilvaFilha de ‘peixe’A domadora aprendeu as manhas da profissão com a ajuda do paiA domadora passou praticamente a vida toda debaixo da lona do circo, entre uma apresentação e outra, entre uma viagem e outra. Já conheceu quase todos os estados brasileiros e países da América do Sul. Para concluir o primeiro grau - 1ª a 8ª série -, por exemplo, estudou em 69 escolas diferentes. Também chegou a morar algum tempo na Holanda, onde o pai nasceu e trabalhou, e na Alemanha.
Mas a paixão pelos animais começou muito cedo, principalmente por causa da profissão do pai. Irma adotava todo cão ou gato doente que encontrava pela rua. Cuidava de cada um com zelo, como se fosse um membro da família. A sua primeira apresentação no circo, de certa forma, refletiu a preferência: foi num número infantil, onde ela estava vestida como um dos sobrinhos do Pato Donald. Com apenas seis anos de idade, também atuava no picadeiro ao lado de pôneis.
Mas até se decidir pela função de domadora - para desespero da mãe, que preferia que ela fosse trapezista; e orgulho do pai -, ela fez de tudo no circo. Foi bailarina, parceira de malabarista, ajudante de mágico etc. ‘‘Só não trabalhei com altura, como minha mãe fazia. Nunca foi o meu forte.’
Aos 16 anos, depois de passar anos ajudando o pai a cuidar dos animais do circo, já tinha se decido: queria mesmo ser domadora. ‘‘A única pessoa que confiou em mim foi o ‘seo’ Orlando (Orfei, dono do circo). Porque meu pai sabe muito bem dos riscos de uma jaula. E minha mãe já passou muito apuro com o marido e até hoje não gosta da função que escolhi. Mas eu insisti e consegui o que queria.’
A fase de preparação, para que ela pudesse entrar sozinha na jaula com leões, demorou quatro anos. Neste período, cuidava dos animais fora do espetáculo e ia aprendendo as manhas da profissão com o pai. Um dos segredos, ela revela, é conhecer os olhos do leão: quando eles se dilatam, é preciso ter muito cuidado. As feras podem atacar a qualquer momento. ‘‘Eles atacam silenciosamente, não fazem barulho. Temos que ter cuidado.’
O grande dia para Irma - quando ela finalmente estreou sozinha dentro de uma jaula com leões - aconteceu numa cidade do interior da Argentina. Na época, ela tinha apenas 21 anos de idade. Mas não houve grandes problemas ou dificuldades. ‘‘Quando disseram que eu podia entrar na jaula, já sabia exatamente o que tinha que fazer. E foi tudo bem. Depois disso, não parei mais’’, recorda.
Com o tempo e a experiência, a domadora também foi conhecendo outras particularidades da profissão, como por exemplo dobrar a atenção quando uma das leoas está no cio. Neste dias, conta Irma, o animal fica mais violento não só com a própria domadora como também tenta atacar os outros animais. ‘‘Então tenho que cuidar de mim e dos outros também. É muito difícil.’
Entre um aplauso e outro, Irma também já passou muito apuro com os leões. Certa vez, por exemplo, um funcionário do circo abriu o túnel por onde passam os animais na hora errada. Ela ainda estava no meio do corredor, no caminho da jaula, sem qualquer proteção. Um dos leões foi na direção de Irma, se abaixou e montou o bote, como se fosse atacar. Mas acabou desistindo e foi embora. ‘‘Olha, não passou nada pela minha cabeça naquela hora. É engraçado, mas você não consegue pensar em nada.’
A domadora admite que é muito difícil prever a atitude dos animais durante um espetáculo e, nas dificuldades, se defende com técnica e experiência. ‘‘Mas sei que meu trabalho é de alto risco. Sei que posso morrer num ataque e, se não morrer, ficar com problema sério. Mas fora do circo a vida também não anda muito fácil, a violência nas cidades é muito grande’’, observa.
Mesmo nas horas de descanso, a tensão provocada pelo perigo às vezes aflora. Os pesadelos, por exemplo, são comuns na vida da domadora. É quase sempre a mesma história, quando o aplauso do espetáculo é trocado pelas garras da fera, que agarra e devora a domadora. Para relaxar, Irma gosta de bordar, principalmente as roupas dos outros personagens do circo. ‘‘Adoro bordar. É meu tranquilizante’’, confirma.
Apesar dos perigos, o amor pelos animais e pelo circo é mais forte e a domadora não pensa em abandonar a vida que leva. Até já teve dúvidas, como em 1988, quando colocou na cabeça que queria ser secretária e arrumou endereço fixo em São Paulo. Um ano e pouco fora do picadeiro, no entanto, foram suficientes para que ela percebesse que não vive longe do circo. ‘‘O circo é como uma doença, que contagia e não larga mais.’
A domadora relata, por exemplo, que já viu e viveu momentos inesquecíveis por conta da profissão. Pela janela do trailler, por exemplo, recorda de grandes paisagens, como a Cordilheira dos Andes; a neve na Argentina; as praias no nordeste brasileiro; e muito mais: ‘‘Vida de circo tem mesmo muita coisa boa, você conhece muito lugar diferente, Pessoas diferentes. A gente faz turismo trabalhando’’, define.
Irma conta também que nestas viagens é muito difícil alguém acreditar, na rua, que ela trabalha domando seis feras dentro de uma pequena jaula. Por isso, hoje prefere não falar mais sobre a função que exerce no circo. ‘‘Já ouvi muita piada a respeito. Todo tipo de piada. Tem um, certa vez, que disse que, se eu era domadora de leões, ele era o Mike Tyson. Desisti de contar.’
Atualmente, a domadora também tem outros motivos importantes para não pensar em largar o circo. O principal: casou-se com o domador do urso branco do Orlando Orfei, com quem tem um filho de cinco anos de idade. ‘‘Trabalhei com os leões até o oitavo mês de gravidez. Depois, não deixaram mais’’, recorda, com humor. O filho, por sinal, também começou cedo na profissão e já participou de números com o mágico e com os cachorros. Se manter a tendência, vai acabar na mesma profissão do pai, mãe e avô.
Serviço:
Circo Orlando Orfei. Instalado na avenida Leste-Oeste, ao lado do Terminal Urbano. Apresentações de segunda a sábado às 20h30. Domingos e feriados também às 17 horas. Preços: a partir de R$ 5,00 para crianças e a partir de R$ 8,00 para adultos.


PERFIL
Nome: Irma Keszy Guranyi
Idade: 27 anos
Peso: 45 quilos
Altura: 1,60 de altura
Hobby: bordar
Profissão: domadora de leõesCelso PachecoA bela e a feraIrma: ‘‘Sei que posso morrer num ataque. Mas fora do circo a vida também não anda fácil’’Lúcio Horta

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