Irmã conta 26 anos de guerra,
fome e doença em Moçambique
Missionária brasileira fala do trabalho assistencial que realiza desde 1972 no país do sudeste africano
Lúcio Horta
Arquivo particularHá 26 anos, ela trabalha pelas comunidades mais pobres e abandonadas do continente africano. Mais precisamente, na província de Niassa, em Moçambique, na costa sudeste da África. Evangelização e atendimento à saúde têm sido a rotina da irmã Tereza José de Osti desde de que deixou o Brasil, no começo da década de 70, para integrar um instituto missionário. Ela está em Londrina, esta semana, para visitar amigos e parentes.
Arquivo particular
Natural de São Manuel, interior de São Paulo, irmã Tereza faz parte do Instituto Missionárias de Nossa Senhora de Consolata, uma fundação italiana que mantém diversas missões em países africanos. Ela chegou a Moçambique em 1972, num momento delicado da vida política do país. Na época sob domínio português, Moçambique vivia os últimos capítulos de um movimento nacionalista que se arrastava desde a década de 50 e se transformara em guerra civil.
‘‘Quando cheguei o povo estava vivia espalhado nos matos e recolhido em aldeias. A gente trabalhava arriscando a vida em minas explosivas e mesmo assim não teve como conter a disseminação de doenças’’, recorda. A maioria das doenças são típicas de países subdesenvolvidos, como malária, cólera, lepra, tifo, tuberculose e até elefantíase. Sem contar a fome: a guerra e a seca acertaram em cheio a produção de alimentos.
Arquivo particularCenas de trabalhoRotina de Irmã Tereza tem sido prestar atendimento em aldeias da província de Niassa: entre os problemas, estão a fome, o isolamento de tribos e a disseminação de doenças como lepraA guerrilha contra o exército português, organizada pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) a partir de 1962, culminou na independência do país, em 1975. Isso aconteceu cerca de um ano da chamada Revolução dos Cravos, que derrubou a ditadura em Portugal e libertou outras colônias dominadas pelos portugueses no continente, como Guiné-Bissau e Angola.
O trabalho desenvolvido pelas missões, no entanto, acabou não sendo reconhecido pelo novo governo de Moçambique. Pelo menos num primeiro momento. De orientação marxista e no auge da Guerra Fria, o governo estatizou todas as escolas e hospitais. Os novos governantes ordenaram que os missionários abandonassem as províncias e se refugiassem na capital Maputo, longe das populações mais carentes, que acabaram ficando ainda mais abandonadas.
Visita ao BrasilA missionária Tereza José de Osti em Londrina: ‘Ninguém acreditava que podia haver a paz em Moçambique’‘‘O comunismo, em Moçambique, foi contra a cultura e a tradição do país’’, recorda Irmã Tereza. Enquanto ficaram na capital, os missionários aproveitaram o tempo para reavaliar e reorganizar o trabalho desenvolvido no local, inclusive editando livros e bíblias que eram distribuídos, clandestinamente, à população local.
Não demorou muito para que o novo regime também fosse constestado, sobretudo por uma organização anticomunista, e a guerra civil explodisse novamente em Moçambique. Escolas e hospitais, assim como as antigas missões, foram destruídos durante os conflitos. Aldeias viraram palco de guerra e campos minados acabaram espalhados por todo país. ‘‘Não havia sossego. Até 1993 muita gente morreu por causa da guerra’’, recorda.
Um dos momentos mais dramáticos vivido por irmã Tereza, durante a guerra civil, foi em 1990. Ela acompanhava um comboio de caminhões escoltados por militares quando, no meio da estrada, foi atacada por tropas rebeldes. ‘‘Quando me dei conta estava debaixo do caminhão. Foram duas horas de fogo. Cinco militares morreram.’’
A esperança de paz em Moçambique chegou também no começo da década de 90, juntamente com o declínio político e econômico dos países do Leste Europeu e a queda do regime racial na África do Sul, que durante algum tempo colaborou com os rebeldes. Até que a democracia fosse estabelecida, no entanto, os conflitos se intensificaram.
Depois de 16 anos de guerra e mais de 1 milhão de mortos, as eleições presidenciais finalmente foram realizadas em Moçambique em outubro de 1994. ‘‘Ninguém (até então) acreditava que podia haver a paz em Moçambique. Recomeçamos o nosso trabalho, mas ainda está no começo. E nossa província, Niassa, ainda está isolada’’, aponta.
Hoje irmã Tereza trabalha em hospitais, no atendimento a doentes, e também na orientação de líderes de tribos locais. O instituto missionário mantém ainda oficinas de formação profissional, centro para crianças desnutridas e distribuição de remédios para os líderes tribais.
Uma das doenças que mais preocupam as autoridades locais é a lepra, que atinge somente em Niassa mais de 200 pessoas. Com um tratamento cuidadoso, a doença é curada em aproximadamente três anos. Nos últimos anos o problema já tem diminuído, mas ainda falta muito, segundo ela, para ser amenizado.
‘‘Há líderes que anda 70, 80 quilômetros para receber remédios e informações. Depois voltam também a p钒, diz Irmã Tereza, que retorna no próximo mês a Moçambique. Ficará um período de três anos na capital Maputo. Depois, voltará para continuar o trabalho em Niassa.

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